Interrogatório de Elite
O corredor da ala administrativa da Academia Titã cheirava a ozônio e desinfetante, um contraste clínico com o odor de metal queimado e suor que ainda impregnava o traje de Kaelen. O zumbido em seus ouvidos, um efeito colateral do Módulo Sincronia, era uma frequência constante que ameaçava transformar sua visão em um borrão estático. Ele caminhava entre dois guardas da segurança, cujas botas pesadas no piso de polímero reforçado soavam como uma contagem regressiva.
— Mantenha o passo, cadete — rosnou o guarda à esquerda, a mão pairando sobre o coldre de choque. — O Diretor não gosta de esperar. O sucateamento do seu frame já está agendado para daqui a duas horas e quarenta minutos. Não torne o processo mais doloroso do que precisa ser.
Kaelen não respondeu. Ele precisava economizar cada centelha de energia neural. A vitória no terceiro duelo não fora apenas uma conquista de ranking; fora uma demonstração pública de que o Módulo Sincronia superava as limitações da engenharia da Academia. Ele não era mais apenas o sucateiro de baixo escalão; ele era uma anomalia que a diretoria não podia ignorar.
Ao entrarem no escritório, o Diretor não se virou. Ele estava diante de uma projeção holográfica em tamanho real do último duelo. O 'Sucata-V' de Kaelen executava uma manobra de esquiva impossível, os propulsores brilhando com a assinatura de energia inconfundível do protótipo.
— Você não está apenas pilotando, Kaelen — o Diretor disse, a voz desprovida de qualquer emoção, enquanto pausava a imagem no momento exato em que o Módulo sobrecarregava. — Você está operando uma interface proibida. A assinatura de energia que você deixou na arena é uma confissão assinada. O confisco já deveria estar em andamento.
Kaelen deu um passo à frente, ignorando a pontada de dor que latejava na base de seu crânio. Ele precisava transformar aquela ameaça em uma negociação.
— Se fosse apenas um roubo, eu já estaria algemado na ala de descarte — Kaelen retrucou, a voz rouca, mas firme. — Você não me trouxe aqui para me punir. Você me trouxe porque o Módulo funcionou onde seus modelos de elite falharam. Eu venci o terceiro duelo com um frame que seus técnicos juraram ser lixo. Se a Academia quer o topo, ela precisa de inovação, não de conformidade.
O Diretor girou a cadeira, revelando um rosto marcado por décadas de burocracia impiedosa. Ele tocou um painel e a simulação do duelo foi acelerada, focando nos momentos em que o Módulo Sincronia compensava a falha estrutural do frame, transformando um movimento de defesa em um contra-ataque letal.
— Você tem razão sobre a eficácia — o Diretor admitiu, deslizando um tablet sobre a mesa de mogno. — Mas a sua existência é um erro estatístico que está se tornando uma vantagem estratégica. Valéria e as facções de elite estão pressionando por sua remoção. Eles temem o que você representa: a obsolescência da linhagem deles. A dívida da sua família? Ela desaparece hoje, se você concordar em servir como um agente de campo da diretoria.
Kaelen sentiu o peso da proposta. Era a liberdade financeira que seu pai nunca alcançou, mas o preço era tornar-se um peão infiltrado, exposto a riscos que a Academia não registraria oficialmente. Ele olhou para o registro de energia do Módulo na tela. Ele sabia que o Diretor o via apenas como uma ferramenta descartável.
— E se eu recusar? — Kaelen perguntou.
— Sua família será despejada ao amanhecer, e seu frame será reduzido a sucata para análise. Mas, se aceitar, não apenas sua dívida será quitada, como lhe darei acesso às rotas de busca para as outras peças do sistema. Eu sei que o que você tem é apenas o início, Kaelen. O sistema Sincronia está espalhado, e eu preciso de alguém capaz de recuperá-lo antes que os outros o façam.
O Diretor transmitiu as coordenadas da segunda peça: um setor de mineração abandonado, agora controlado por facções hostis. Kaelen aceitou o pacto. O jogo de sobrevivência na arena havia acabado; a guerra pelo sistema Sincronia acabara de começar.