O Duelo das Sombras
O zumbido metálico na enfermaria da arena perfurava os tímpanos de Kaelen como agulhas. Sua visão tremia, o HUD do Módulo Sincronia fragmentando a realidade em pixels estáticos e sangrentos. Mestre Aris bloqueava a luz do teto, sua sombra pesada sobre o leito.
— Você está se autodestruindo, garoto — a voz de Aris soava arrastada. — O Módulo não está apenas extraindo dados do seu Frame; está drenando sua essência vital. Se subir na arena agora, será um duelo de tudo ou nada. O Frame vai colapsar sob a carga.
Kaelen forçou o tronco para cima, o gosto metálico de sangue na garganta. Ele não tinha luxo de recuar; a dívida de sua família, acelerada, o encurralava. Aris jogou um frasco azul, ilegal e proibido, sobre o lençol.
— Estabilizador de Sinapse. Vai custar danos permanentes ao seu sistema nervoso. É suicídio.
Kaelen injetou o estabilizador sem hesitar. A dor foi imediata, como mil agulhas de gelo perfurando seus nervos, mas a névoa que nublava sua visão se dissipou num estalo nítido. O zumbido cessou, substituído pelo som frenético do próprio coração em cadência com o reator do frame. Ele se levantou, a rigidez antinatural em suas mãos sendo o único sinal da toxicidade da droga.
No corredor frio da Academia Titã, Valéria o aguardava, bloqueando a saída. O contraste entre sua elegância impecável e o estado deplorável de Kaelen era um golpe social calculado.
— Você parece um morto-vivo — ela sibilou, os braços cruzados. — O Diretor já tem os registros do seu Módulo. A assinatura de energia que você deixou na arena foi um pedido de sucateamento.
Kaelen sentiu a pontada da enxaqueca, um eco do dano neural. Ele forçou um sorriso, ignorando o tremor residual.
— Se fosse um erro, eu já estaria sendo escoltado pela segurança, Valéria. O fato de você estar aqui, tentando me convencer a desistir, só prova uma coisa: você está com medo do que acontece se eu subir no ranking.
Valéria estreitou os olhos, um lampejo de irritação rompendo sua máscara. — Não é medo. É piedade. Você está pilotando um caixão voador.
Kaelen a contornou, mantendo o passo firme. — Então prepare-se para ver o caixão vencer.
Na Arena Principal, o cronômetro marcava menos de três horas. O oponente, um veterano de elite, avançou com uma precisão cirúrgica. Kaelen manteve o controle manual, bloqueando e esquivando, mas o custo era óbvio: a integridade estrutural do seu frame caía a cada segundo. Quando o oponente desferiu um golpe descendente, Kaelen não teve escolha. Ele puxou a alavanca de sobrecarga, ativando o Módulo Sincronia.
O mundo ao redor de Kaelen desacelerou. O Módulo transformou o combate em um espetáculo de luz e dados; cada movimento do oponente era uma sequência de vetores brilhantes que Kaelen antecipava com uma precisão super-humana. Ele girou, o frame emitindo um lamento metálico sob a carga, e desferiu um contra-ataque que desativou o braço do oponente em um único golpe limpo. A plateia silenciou, chocada com a assinatura de energia proibida que banhava a arena em um brilho azul doentio. Kaelen venceu, mas caiu exausto no cockpit, o nariz sangrando copiosamente enquanto os sensores da Academia gravavam cada detalhe de sua tecnologia ilegal.
Antes que pudesse processar a vitória, dois guardas da Academia, com armaduras de contenção, bloquearam seu caminho. Não houve diálogo. Ele foi conduzido pelos corredores estéreis até uma porta de aço escovado. Dentro, o escritório do Diretor era um aquário de vidro com vista para o Campo de Provas. O homem sentado atrás da mesa de mogno não parecia um burocrata; ele exalava a aura de quem já havia comandado frotas em guerras reais.
— Sente-se, Kaelen — disse o Diretor, sem desviar o olhar dos dados que flutuavam em uma tela. — Você tem algo que pertence ao projeto original da Academia. Algo que, nas mãos erradas, é um crime. Mas nas mãos certas... é a chave para o que vem a seguir.