A Segunda Peça
O escritório do Diretor cheirava a ozônio e café frio, um ambiente estéril que parecia sugar o oxigênio da sala. Kaelen mantinha a postura firme, embora seus dedos, trêmulos pela sobrecarga neural da última luta, traíssem sua fachada de controle. Sobre a mesa de mogno, o Diretor deslizou um disco de dados. O som metálico foi como um martelo batendo em uma bigorna.
— A dívida da sua família está quitada, Kaelen — disse o Diretor, os olhos fixos em algo além do cadete. — Mas você não é mais um estudante em busca de ranking. Você é um ativo da diretoria. O Módulo Sincronia não é um brinquedo de oficina; é a chave para um sistema que a Academia não pode perder. O próximo fragmento está no Setor de Mineração 04. Quatro horas antes que a manutenção da Academia limpe o local. Não falhe.
Kaelen guardou o disco e saiu sem olhar para trás. A liberdade da família custara sua autonomia, e o tempo corria como areia entre os dedos.
O Subnível 4 era um cemitério industrial. O ar, denso com poeira metálica, vibrava com a instabilidade de seu frame. A cada passo, o chassi gemia sob o esforço, e o sistema de resfriamento, sobrecarregado pelo uso contínuo do Módulo, disparava alertas âmbar constantes. Kaelen ativou a interface. A dor neural, uma agulhada familiar em sua têmpora, acompanhou a cascata de dados brutos que inundou sua visão. Ele hackeou a rede de segurança local, sentindo os sensores obsoletos da zona proibida tentarem travar seu frame. Ele forçou o sistema a ceder, a dor aumentando a cada milissegundo de intrusão, até que a porta da câmara de extração cedeu com um estalo hidráulico.
Mas ele não estava sozinho.
Valéria bloqueava o caminho, seu exoesqueleto de combate brilhando com a pureza da alta linhagem. — Você é apenas um cão de guarda com um brinquedo que não sabe controlar, Kaelen — ela zombou, a voz cortante. — Esse módulo vai fritar seus nervos antes mesmo de você subir de escalão. Ela avançou, a lança de energia de seu frame traçando um arco letal.
Kaelen não respondeu com palavras. Ele sobrecarregou o sistema de resfriamento, ignorando o vapor que escapava pelos dutos. Ele não tinha luxo para debates; ele tinha um cronômetro. Com um movimento de precisão cirúrgica, ele forçou uma manobra de desestabilização neural, sacrificando sua estabilidade para imobilizar o mech de Valéria. O impacto foi brutal, e ela recuou, furiosa, enquanto ele acessava o compartimento.
Dentro, a segunda peça pulsava com uma luz azulada. Kaelen a encaixou no chassi. A dor foi excruciante, como vidro moído percorrendo seus nervos, mas a mudança foi instantânea. A escuridão do setor foi substituída por uma sobreposição de vetores de energia e densidade estrutural. Ele não estava apenas pilotando; ele estava calculando a realidade. O frame estabilizou, emitindo um zumbido grave que fez o chão tremer.
Ele olhou para o horizonte da cidade, vendo a Academia não como um pináculo de poder, mas como um campo de treinamento minúsculo. A guerra real estava começando, e ele agora tinha as ferramentas para sobreviver a ela.