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Chapter 2: O Escudo de Cinismo

Beatriz enfrenta o escrutínio da elite paulistana e a pressão de Henrique. Após ele defendê-la de uma socialite, a tensão entre ambos escala dentro da limusine, onde Henrique deixa claro que sua proteção é um contrato de lealdade, não um gesto de afeto.

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O Escudo de Cinismo

O Salão de Cristal do Hotel Unique não era um ambiente de celebração; era um aquário de luxo onde a elite paulistana dissecava cada movimento de Beatriz. O mármore sob seus pés parecia gélido, e o peso do vestido de alta costura — uma armadura que não lhe pertencia — era a lembrança constante de sua fraude. Ao seu lado, Henrique Bittencourt não caminhava; ele ocupava o espaço. Sua presença era uma muralha de cinismo e perfume amadeirado, uma barreira que, em vez de protegê-la, isolava-a do mundo para melhor inspecioná-la.

— Lembre-se — a voz dele era um fio de navalha, audível apenas para ela. — Sua irmã fugiu com algo que vale mais que a reputação da sua família. Se o seu nervosismo for interpretado como culpa, a falência de vocês será a menor das suas preocupações.

Beatriz endireitou a coluna, forçando um sorriso que não alcançava os olhos. Ela não era a herdeira mimada que escolhera a fuga; era a mulher que tentava salvar o que restava da dignidade de seu pai.

— Eu sei qual é o meu papel, Henrique — rebateu, a voz firme apesar do tremor interno. — Mas não espere uma marionete. Se quer que eu sustente essa farsa, precisará me dar motivos para acreditar que o custo valerá a pena.

Antes que ele respondesse, a baronesa Lúcia de Albuquerque bloqueou o caminho. Seus olhos, afiados como bisturis, varreram Beatriz com um desprezo palpável.

— Henrique, querido — começou Lúcia, ignorando Beatriz. — Que surpresa vê-lo com a... substituta. Ouvi dizer que a original tinha pressa em deixar a cidade. Documentos importantes costumam ser pesados, não é? Dizem que ela levou o bastante para derrubar a cotação da Bittencourt na bolsa.

O silêncio que se seguiu foi cortante. Beatriz sentiu o sangue fugir de seu rosto, mas antes que pudesse formular uma resposta, Henrique deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal da baronesa. Ele não levantou a voz, mas sua autoridade fez a mulher recuar.

— A curiosidade é um traço perigoso, Lúcia — disse ele, a frieza em seus olhos prometendo retaliações financeiras. — Minha noiva está aqui. O resto é apenas ruído de quem não tem acesso aos fatos. Sugiro que cuide de seus próprios investimentos antes que os meus decidam engoli-los.

Lúcia empalideceu e desapareceu na multidão. Henrique não olhou para Beatriz, mas sua mão, firme e possessiva, apertou o braço dela, guiando-a para a saída privativa. Dentro da limusine, o silêncio era uma arma. Henrique mantinha os olhos fixos em um tablet, a luz azul esculpindo sombras duras em seu rosto.

— Você tremeu quando ela mencionou as dívidas — Henrique quebrou o silêncio, sem desviar o olhar. — Se pretende ocupar o lugar da sua irmã, o medo é um luxo que você não pode se permitir. Minha reputação não é um escudo para amadores.

— Eu não estou tremendo, estou calculando — ela respondeu. — Se você quer uma noiva impecável, talvez devesse ter escolhido alguém com menos a perder. O fato de eu estar aqui, assumindo os cacos de uma fuga que quase arruinou sua fusão, deveria ser motivo de gratidão, não de escrutínio.

Henrique fechou o tablet com um estalo seco. Ele se inclinou, a proximidade forçada tornando a respiração dela curta.

— Gratidão não paga dividendos, Beatriz — ele sussurrou, a mão subindo até o seu queixo, forçando-a a encará-lo. — Mas a sua lealdade será testada até o limite. Espero que esteja pronta para o que virá quando as câmeras voltarem a nos cercar.

Ao chegarem de volta ao saguão, a imprensa os aguardava como uma alcateia. O som dos obturadores começou a disparar em uníssono, uma metralhadora de flashes que transformou o ambiente em um pesadelo estroboscópico. Beatriz sentiu-se desorientada, o brilho das luzes cegando-a. Henrique a puxou para perto, sua mão deslizando para a curva de sua cintura em um gesto que parecia carinho para os fotógrafos, mas que para ela era uma ordem implícita de imobilidade.

— Sorria — ele murmurou contra o seu ouvido, a voz destilando um cinismo que a fez estremecer. — O mundo inteiro está assistindo ao nosso erro.

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