O Preço da Honra no Salão de Cristal
O ar nos bastidores do Salão de Cristal do Hotel Grand Palace era denso, saturado com o perfume de lírios brancos e o pânico metálico dos criados. Beatriz sentia o tecido pesado do vestido de noiva, um modelo de alta costura que nunca fora ajustado para ela, arrastar-se pelo mármore como uma sentença de morte. À sua frente, seu pai, com a face desfigurada pela palidez de quem vislumbrava a ruína absoluta, não conseguia sustentar seu olhar.
— Ela não está vindo, Beatriz. Sua irmã escolheu a fuga e o escândalo. Se você não entrar naquele salão agora, não sobrará um único tijolo do nosso nome — a voz dele era um fio de navalha, desprovida de qualquer afeto.
Beatriz sentiu o peso da dívida oculta, o segredo que a família mantinha trancado sob a fachada de luxo. A noiva original não fugira apenas por capricho; ela levara documentos, provas que poderiam destruir Henrique Bittencourt em um único golpe de publicidade. Agora, o herdeiro esperava no altar, e o vácuo deixado pela irmã era uma armadilha pronta para se fechar sobre a única pessoa que restava.
— Você está me vendendo como se eu fosse um ativo de liquidação — disse ela, mantendo a voz firme, embora suas mãos estivessem geladas.
— Estou salvando o que resta da nossa dignidade — ele retrucou, empurrando-a em direção à porta dupla de mogno. — Henrique é um homem de contratos. Se ele acreditar que a substituição foi apenas um erro de logística e não uma sabotagem, teremos uma chance. Entre.
O Salão de Cristal não era apenas um ambiente; era uma guilhotina de luzes de LED e olhares ávidos, projetada para triturar reputações sob o som de taças de champanhe. Beatriz atravessou o tapete em direção ao altar improvisado. Cada passo sob o brilho frio dos lustres parecia uma confissão de culpa. Ela não era a noiva que o mundo esperava, mas era a única que a família tinha para oferecer como sacrifício.
Henrique estava parado junto ao arco de flores, uma silhueta imponente em um terno sob medida que custava mais do que o aluguel anual de seu apartamento. Ele não sorria. Seus olhos, de um cinza gélido, varreram Beatriz com a precisão de um cirurgião procurando por uma hemorragia. Ele sabia. O silêncio que emanava dele era denso, quase palpável, uma barreira de autoridade que fazia a multidão ao redor parecer um ruído de fundo distante.
— Você está atrasada — disse ele, a voz baixa, modulada pelo desprezo. — E, pelo que vejo, a mercadoria foi trocada por uma cópia menos valiosa.
Beatriz parou a um metro dele, o coração martelando contra as costelas como um pássaro enjaulado. A humilhação queimava em seu peito, mas ela endireitou a coluna. Se o preço da sobrevivência de sua família era o escárnio da elite paulistana, ela pagaria com a dignidade que lhe restava. Ela não era uma vítima, era uma necessidade, e ele sabia disso tão bem quanto ela.
— A logística mudou, Henrique. O contrato ainda é válido, ou o herdeiro dos Bittencourt tem medo de uma substituição? — desafiou ela, mantendo o queixo erguido apesar da trepidação em suas mãos.
Henrique estreitou os olhos, um lampejo de interesse sombrio cruzando sua expressão imperturbável. Ele não esperava resistência. Ele estava acostumado a comprar obediência, não a negociar com o sacrifício. Antes que ela pudesse recuar, Henrique avançou, invadindo seu espaço pessoal. O perfume dele, uma mistura de sândalo e poder, a envolveu, sufocante.
Ele segurou o pulso de Beatriz com uma firmeza que não admitia contestação, seus olhos frios cruzando o salão, ignorando os fotógrafos que começavam a se aglomerar como abutres.
— Você não é quem esperávamos, mas terá que servir — sussurrou ele, a voz carregada de uma promessa perigosa.
O flash das câmeras cegou Beatriz, e Henrique a puxou para perto, colando seus corpos sob o brilho ofuscante dos holofotes. Ele inclinou-se, seus lábios quase roçando o ouvido dela enquanto a multidão, alheia ao pacto forçado, começava a aplaudir o que acreditavam ser uma união perfeita.
— Sorria, Beatriz — ele murmurou, a voz gélida e autoritária. — O mundo inteiro está assistindo ao nosso erro. E agora, você é minha responsabilidade.