Chapter 11
O cano da pistola pressionava a têmpora de Isadora com força suficiente para marcar a pele. Helena sentiu o ar faltar, como se o galpão inteiro tivesse se fechado em torno dela. Menos de quatro horas para a meia-noite. Menos de quatro horas para a dívida vencer e para Viana cumprir a ameaça.
— Entrega logo, Lena pequena — murmurou Ricardo Viana, a voz baixa, quase doce, carregada do mesmo tom que usava nas festas da família quando ela era criança. — Antes que eu perca a paciência.
Helena permaneceu imóvel no centro do galpão 17, no Brás, o cheiro de mofo, óleo queimado e chuva velha grudando na pele. Isadora, amarrada à cadeira enferrujada, tremia sem emitir som, os olhos fixos na prima. O hematoma na têmpora dela pulsava sob a luz crua das lâmpadas industriais. O apelido ainda ecoava, trazendo de volta quintais molhados, tardes de costura com a tia e a sensação de que nada nunca fora seguro de verdade.
Helena apertou os dedos contra o decote do vestido. O ledger original estava ali, úmido de suor, o papel grosso dobrado contra a pele. Arthur estava a poucos passos, nas sombras, mas ela sentia cada respiração dele como um peso compartilhado. Ele havia destruído as provas físicas da fraude de 2018 para protegê-la — não Isadora, não a tia. Só ela. A revelação ainda queimava.
Viana inclinou a cabeça, sorrindo com dentes brancos demais para a penumbra.
— Você acha que eu não sei quem você é desde a gala? A substituta. A sobrinha que ninguém esperava. O sangue sujo dos Albuquerque, mas com um rosto que ainda serve. O plano sempre foi usar você pra trazer o ledger e fazer o Monteiro cair junto.
Helena engoliu em seco. Arthur deu um passo à frente. O terno escuro estava amarrotado, a gravata frouxa, mas a postura continuava afiada como lâmina.
— Eu transfiro os códigos agora — disse ele, voz baixa e controlada. — Cayman, Suíça, Panamá. Tudo sem rastros. Solte ela primeiro.
Viana riu seco, ecoando nas chapas de metal.
— Acha que vim aqui trocar refém por senha? Eu quero o papel. A assinatura dela. E quero ver você entregar a sobrinha dos Albuquerque de bandeja pra imprensa quando eu terminar.
Arthur tirou o celular devagar, mãos visíveis. Ativou a câmera e iniciou uma transmissão ao vivo para o contato na imprensa.
— Se você apertar o gatilho, o mundo vai ver seu rosto, seu nome e suas contas antes de você piscar. Tudo exposto.
Viana hesitou. Seus olhos saltaram do celular para Helena. Ela aproveitou a brecha e deu um passo em direção à prima, tirando o ledger do decote com dois dedos. O papel rangeu ao se abrir. Ela o ergueu, mantendo três metros de distância.
— Você quer isso? — A voz dela saiu firme, apesar do latejar nas têmporas. — Então grave. Aqui. Agora. Confesse que mandou matar meu tio pra encobrir a lavagem. Que chantageou minha tia por sete anos. Que sequestrou Isadora pra me forçar a trazer o original. Tudo. E eu entrego.
Viana estreitou os olhos. O sorriso sumiu.
— Tá bom. Grave.
Helena pegou o celular dele do chão e abriu a câmera. Viana começou a falar, mas as palavras saíam torcidas — datas trocadas, culpa jogada toda nos Albuquerque, omissões cirúrgicas. Mentiras costuradas com precisão.
Helena interrompeu, voz cortante:
— A verdade completa. Ou eu rasgo isso aqui na sua frente.
Viana perdeu o controle. A arma girou rápido para Helena. O dedo apertou o gatilho.
O disparo cortou o ar. Arthur se jogou na frente dela no mesmo instante. O corpo dele absorveu o impacto, cambaleando. A mão esquerda apertou o ombro direito. Sangue escuro vazou entre os dedos, manchando a camisa branca.
Viana recuou um passo, surpreso.
Arthur não parou. Com o braço bom, agarrou o pulso de Viana, torceu até o osso estalar. A pistola caiu no concreto com um tinido. Ele chutou-a para longe e empurrou Viana contra a parede, antebraço no pescoço.
Helena correu para Isadora. Pegou a tesoura que Arthur carregava no bolso e cortou as cordas com movimentos precisos, ignorando o tremor nas mãos. A prima caiu para a frente, tossindo, pulsos marcados de vermelho.
— Grave agora — ordenou Arthur para Helena, sem desviar o olhar de Viana.
Ela apontou o celular. A câmera tremia levemente, mas Helena firmou o pulso.
Arthur apertou mais o antebraço.
Viana engasgou, rosto avermelhado:
— Eu… mandei matar o velho Albuquerque em 2018. A lavagem foi ideia minha. Chantageei a viúva… sequestrei a sobrinha… tudo pra pegar o ledger e o dinheiro.
Cada palavra saiu arrastada, custando caro. Helena sentiu o peito aliviar pela primeira vez desde que entraram no galpão. Isadora se apoiou nela, respiração rápida e quente contra seu ombro.
Ao fundo, sirenes começaram a se aproximar, distantes mas crescendo rápido.
Arthur afrouxou ligeiramente a pressão, mas não soltou. Olhou para Helena por cima do ombro ferido, o rosto pálido de dor, suor escorrendo pela têmpora.
— Agora não há mais contrato — disse baixo, só para ela. A voz carregava o peso de tudo que ele havia sacrificado: a reputação que ele estava jogando na frente das câmeras, o escândalo que viria quando a transmissão vazasse para a elite. — Quando isso acabar… eu ainda quero você. Sem chantagem. Sem ledger. Só você.
Helena sustentou o olhar dele. O sangue pingava no concreto entre eles, ritmado como um relógio. O som das sirenes ficava mais alto, misturando-se ao eco do galpão. Ela não respondeu. Ainda não. Mas o peso no peito mudou de lugar — da ameaça para algo mais perigoso: a escolha real que viria depois da meia-noite.
Isadora apertou sua mão com força, lembrando-a de que a família ainda estava em jogo. Helena guardou o ledger de volta no decote, os dedos roçando o papel que agora valia mais do que nunca. Arthur havia pagado com sangue e nome. O próximo passo seria dela.
As sirenes já estavam próximas. O galpão 17 tremia com a chegada da polícia. Helena sentiu o ar mudar — o fim do prazo se aproximando, e com ele, a proposta que Arthur faria sem o escândalo como arma.
Ela ainda não sabia se diria sim. Mas pela primeira vez, a pergunta não a sufocava. Doía de um jeito novo.