Chapter 10
O motor do carro ronronava baixo contra o tamborilar insistente da chuva. Helena apertava o celular, a tela já escura após a ligação da tia. Isadora não fugira. Fora sequestrada na véspera da gala, mantida como garantia até o pagamento da dívida. Menos de quatro horas para a meia-noite de 22 de março.
Ela virou o rosto para Arthur. A luz amarelada do poste cortava a linha dura da mandíbula dele.
— Você prometeu entregar Viana. Nome, contas, endereço do galpão. Tudo. Agora.
Arthur não respondeu de imediato. Seus dedos pararam no volante. Abriu o porta-luvas com um clique seco e tirou um papel dobrado. Estendeu-o sem tocar nela.
Helena pegou, desdobrou. Letra firme:
Galpão 17, Rua das Indústrias, 840, Brás. Código lateral: 9274#. Marcos na guarita. Ele não pode saber.
Ela memorizou cada detalhe antes de erguer os olhos.
— O mesmo Marcos que bloqueou o portão da mansão hoje?
— O mesmo. Recebe ordens de Viana há três anos. Se ele perceber movimento cedo demais, Isadora morre antes de qualquer resgate.
O ar dentro do carro ficou mais denso. Helena dobrou o papel e guardou no bolso interno do casaco, junto ao ledger que pesava contra seu peito.
— Então vamos agora.
— Não é simples assim.
— Para mim é. — Ela entreabriu a porta, deixando entrar o frio úmido. — Se você não vier, eu vou sozinha. E levo o ledger. Viana vai adorar negociar com quem tem a assinatura da própria prima na mão.
Arthur fechou os olhos por um segundo. Ao abri-los, a aceitação neles era afiada como lâmina.
Ele segurou o pulso dela antes que ela descesse. Não apertou. Apenas segurou, o calor atravessando a manga fina. O gesto não era controle — era o custo que ele pagava para não perdê-la naquela noite.
— Eu vou. Mas sem plano, nós três morremos.
Helena sustentou o olhar até o toque virar desconforto. Só então ele soltou.
— Faça o plano caber em três minutos. É o que resta antes que eu decida que você está ganhando tempo.
Arthur ligou o motor. O ronco subiu, cortando o silêncio.
O carro devorava a Marginal Tietê em alta velocidade, faróis rasgando a garoa. O celular de Helena vibrou outra vez — número desconhecido.
Ela atendeu sem falar.
Respiração pesada. Voz masculina distorcida por filtro:
— Lena pequena… está aí?
O apelido cortou fundo. Só Isadora usava assim, nos quintais da infância, sussurrado para não entregá-la no esconde-esconde.
Helena olhou de relance para Arthur. A mandíbula dele travada, músculo pulsando na têmpora.
— Quem fala?
— Você sabe. O galpão na Vila Leopoldina não é difícil. Portão azul descascado, placa de perigo. Sua prima está aqui. Viva. Por enquanto.
— Prova.
Pausa. Ruído de tecido, gemido abafado. Voz rouca de Isadora:
— Lena… não vem. Eles vão…
A ligação caiu.
Helena baixou o aparelho. A chuva borrava o mundo lá fora.
— Ele sabe que estou com você. E que você entregou o endereço.
Arthur acelerou sem responder.
Quinze minutos depois, agachados atrás de um contêiner enferrujado a cinquenta metros do galpão 17, a chuva colava o casaco de Helena na pele. O ledger molhado escorregava entre seus dedos. Luzes vermelhas de veículos posicionados em semicírculo piscavam na entrada principal.
— Chegaram há sete minutos — murmurou Arthur, olhos fixos na porta de metal. — O Audi preto é de Viana.
Helena apertava o documento contra o peito. A ligação ainda ecoava: Lena pequena… não vem.
— Você sabia — disse ela, voz baixa e cortante. — Suspeitava desde o começo que ela não tinha fugido. Que era moeda de troca.
Arthur virou o rosto devagar. Sombras marcavam seus olhos.
— Suspeitava. Mas só tive certeza quando vi a assinatura dela no ledger. Isadora autorizou a lavagem em 2018. Sozinha. Sem coação aparente.
O chão pareceu inclinar sob os pés de Helena.
— Mentira.
— Eu destruí as provas físicas na época. Recibos, transferências, e-mails. Tudo. — A voz dele saiu quase engolida pela chuva. — Fiz isso porque sabia que, se chegassem à polícia ou à imprensa, sua família seria arrasada. Você seria arrasada. Não ela. Você.
O silêncio durou três batidas de coração.
Helena olhou para o ledger. A assinatura de Isadora, datada de sete anos atrás, estava ali, inconfundível.
— Você me protegeu. Não a ela.
— Sim.
Antes que ela respondesse, a porta lateral rangeu. Ricardo Viana saiu primeiro, casaco escuro colado ao corpo. Atrás dele, dois homens arrastavam Isadora — pulsos amarrados, rosto pálido, vestido de festa rasgado na barra.
Viana parou sob o poste. Olhou direto para o contêiner, como se soubesse exatamente onde eles estavam. Ergueu a arma e encostou o cano na têmpora de Isadora.
— Hora de escolher, Helena! — gritou, voz cortando a chuva. — O ledger ou a vida dela. Você tem até meia-noite. E eu sei que você está aí.
Helena sentiu o frio subir pela espinha. Arthur colocou a mão em seu ombro — não para contê-la, mas para ancorar. O toque dizia que ele estava ali, mesmo que custasse tudo.
Mas os olhos dele, ao encontrarem os dela sob a chuva, carregavam outra promessa: se fosse preciso, ele colocaria a própria reputação em jogo para tirá-la daquele inferno com a dignidade intacta perante a elite que os observava de longe.
A verdade sobre a noiva original acabara de ser revelada. E Helena estava agora em perigo mortal.