Chapter 9
A chuva batia no telhado de zinco do atelier como se quisesse entrar à força. Helena segurava o ledger original com as duas mãos, os dedos abertos sobre a capa de couro rachado, sentindo o relevo da assinatura de Isadora sob a ponta do polegar. Arthur estava parado a três passos dela, as costas contra a máquina de costura antiga, os braços cruzados com tanta força que os tendões saltavam no antebraço. Ele não tinha mais nada para oferecer. Nenhum envelope reserva, nenhuma cópia digital, nenhuma testemunha controlada. Só aquele livro velho e a certeza de que, se Helena quisesse, poderia entregá-lo a Viana antes da meia-noite e assistir tudo desabar.
— Você realmente fez isso — murmurou ela, sem erguer os olhos do papel.
— Fiz.
A voz dele saiu rouca, como se tivesse atravessado fumaça. Helena virou a página com cuidado. Lá estava: a assinatura firme de Isadora, tinta preta, data de 14 de novembro de 2018, autorizando a movimentação que nunca deveria ter acontecido. O mesmo traço que aparecia nos recibos falsos que Helena guardava dobrados contra o peito, dentro do decote, desde a gala. Ela fechou o livro devagar.
— Oito milhões menos oitocentos mil que você tirou do próprio bolso hoje à tarde. E agora isso. — Ela ergueu o ledger na altura dos olhos dele. — Você ficou sem escudo. Sem alavanca. Sem nada que me impeça de virar o jogo contra você.
Arthur sustentou o olhar. Não piscou.
— Exatamente.
Helena sentiu o ar ficar mais denso. O peso do couro contra as costelas parecia pulsar no mesmo ritmo do coração dela. Ele tinha acabado de se desarmar na frente da única pessoa que podia usar aquela arma contra ele. E ainda assim olhava para ela como se a decisão tivesse sido a mais óbvia do mundo.
Ela guardou o ledger contra o peito.
— Se isso for verdade, você acabou de me dar o que preciso para destruir você. Por quê?
Ele demorou dois segundos para responder.
— Porque se eu não fizer isso agora, Viana faz antes da meia-noite. E aí não vai sobrar nada para destruir.
Helena não respondeu. Apenas virou as costas e caminhou até a porta dos fundos. Arthur a seguiu em silêncio.
O motor do Bentley ainda ronronava baixo quando eles entraram no carro. Faróis apagados, estacionados nos fundos do atelier, como se o mundo lá fora pudesse esperar mais alguns minutos. Helena apertava o ledger contra o peito; Arthur mantinha as mãos no volante, olhando fixo para o para-brisa embaçado.
Ela respirou fundo e tirou o celular do bolso interno do vestido. A tela acendeu, azul frio contra seu rosto.
— Vou ligar para minha tia — disse, voz firme. — Só para avisar que estou bem.
Arthur virou o rosto devagar. Seus olhos a encontraram por um segundo longo demais.
— Agora?
— Agora.
Ele inclinou a cabeça uma fração de centímetro. Permissão silenciosa.
Helena discou. O toque ecoou no espaço fechado.
Atendeu no terceiro.
— Helena? — A voz da tia veio rouca, quase irreconhecível. — Meu Deus, onde você está?
— Estou segura. Por enquanto. — Ela fechou os olhos por um instante. — Tia, me diz a verdade. Só uma vez. Onde está a Isadora?
Silêncio pesado do outro lado.
— Ela não fugiu, Helena.
O ar fugiu dos pulmões dela.
— O quê?
— Eles a pegaram. Na noite antes da gala. Disseram que era seguro se a gente entregasse o ledger e pagasse o que faltava. Mas… — A voz da tia quebrou. — Eles não soltaram ela. Estão usando Isadora como garantia. Se a meia-noite passar e o dinheiro não cair…
Helena sentiu o estômago revirar.
— Eles estão com ela agora?
— Sim. Num galpão em algum lugar da periferia. Não sei onde. Só sei que Viana liga toda hora. Ele quer o ledger original. E quer você fora do caminho.
Helena desligou sem dizer mais nada. Lágrimas quentes queimavam, mas ela as conteve. Virou-se para Arthur.
— Isadora não fugiu. Eles a têm. E você sabia disso o tempo todo?
Arthur não desviou o olhar.
— Suspeitava. Não tinha certeza até ver a assinatura no ledger. A data coincide com o dia que ela desapareceu do radar. Mas sem prova concreta…
— E agora você tem a prova.
— Agora eu tenho.
Ele desligou os faróis. O carro ficou envolto na escuridão do viaduto. A chuva caía mais forte, batendo no teto como um aviso.
— Eu entrego Viana — disse ele, voz baixa. — Entrego o nome dele, os códigos das contas que ele usa, o endereço do galpão onde eles guardam o resto dos documentos. Em troca…
— Em troca de quê?
— De você não entregar o ledger para ele. De você me deixar destruir as últimas cópias que ainda existem. De você me deixar acabar com isso antes que chegue à imprensa.
Helena apertou o ledger com mais força.
— Você quer limitar o dano. Eu quero salvar minha tia.
— Salvar sua tia significa salvar Isadora. Significa usar o ledger como moeda de troca com Viana. E se você fizer isso, ele vai queimar tudo depois. Incluindo você.
Ela sustentou o olhar dele.
— Então por que você me deu o original?
— Porque eu não tenho mais escolha. E porque… — Ele parou, a mandíbula travada. — Porque eu não quero ver você ser usada como eles usaram Isadora.
Helena sentiu algo se partir dentro do peito. Não era confiança. Era reconhecimento. Ele estava se expondo completamente pela primeira vez. Mas ainda protegia algo — talvez o próprio orgulho, talvez o resto da família Monteiro.
Ela devolveu o olhar.
— Você me deu o ledger. Agora eu decido o que faço com ele. E com você.
Arthur apenas assentiu, o maxilar rígido. Não havia mais negociação. Só aceitação.
O carro voltou a se mover pelas ruas molhadas da Marginal Pinheiros. As luzes dos postes se esticavam em riscos dourados no asfalto encharcado. Helena mantinha os olhos fixos neles para não olhar para o lado. Arthur dirigia com as duas mãos no volante, os nós dos dedos brancos.
O silêncio entre eles pesava mais que o ar-condicionado gelado. Ela sentia o calor dele mesmo estando a meio metro de distância. O cheiro de lã úmida do paletó, misturado com cedro e couro dos bancos aquecidos. Cada vez que ele mudava a marcha, o antebraço roçava de leve no console central, e o movimento parecia ecoar dentro do peito dela.
Helena apertou os dedos contra a coxa, tentando se ancorar. Não podia se permitir desmoronar agora. Não depois de ver o rosto dele quando entregou o caderno: não era rendição. Era aposta.
Ele tinha apostado tudo nela.
— Você não precisava ter dado o original — disse ela, voz baixa.
— Precisava. — Ele não olhou para ela. — Se eu tivesse guardado uma cópia, você nunca ia acreditar que eu estava do seu lado.
Helena virou o rosto devagar. O perfil dele estava iluminado pelos faróis dos carros que passavam na pista ao lado.
— E está? Do meu lado?
Arthur demorou a responder.
— Estou do lado de acabar com Viana antes que ele acabe comigo. E com você.
Ela sentiu o calor subir pelo pescoço. Não era raiva. Era outra coisa. Algo perigoso.
O carro desacelerou num sinal vermelho. A chuva escorria em fios grossos pelo vidro. Nenhum dos dois falou.
Helena olhou para a mão dele no câmbio. Dedos longos, veias marcadas, ainda tensos. Lentamente, quase sem pensar, ela estendeu a própria mão e a colocou sobre a dele. Apenas por um segundo. Pele contra pele. Calor contra calor.
Arthur não se mexeu. Não respirou mais alto. Mas o maxilar dele relaxou uma fração mínima.
O sinal abriu.
Ele engatou a marcha.
Helena retirou a mão.
Nenhum dos dois falou.
O desejo superou a negociação. Ficou ali, suspenso no ar entre eles, mais perigoso que qualquer ledger, mais urgente que qualquer meia-noite.