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Chapter 8: Chapter 8

Helena recebe um ultimato apertado de Viana nos jardins, comprovando que está sendo vigiada. Confronta Arthur na garagem, onde ele revela ter pago R$ 800.000,00 do próprio bolso para ganhar tempo. Eles são bloqueados no portão por um segurança leal a Viana, mas Arthur negocia a passagem prometendo o ledger. No atelier abandonado da família Albuquerque, Arthur entrega o ledger original a Helena, expondo a assinatura de Isadora e abrindo mão de sua última proteção, criando um momento de vulnerabilidade compartilhada que tensiona o desejo entre eles.

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Chapter 8

Helena ainda sentia o calor da mão de Arthur no braço quando saiu do escritório, mas o ar frio dos jardins laterais da mansão Monteiro a acertou como um tapa. O vestido emprestado colava na pele úmida de suor e medo. Cada passo sobre o cascalho parecia anunciar sua presença a alguém que já a vigiava. Ela apertou o envelope fino contra as costelas, sentindo o papel raspar a pele sensível logo abaixo do decote. Os documentos de lavagem que ligavam Arthur ao mesmo buraco negro que engolira sua família agora eram sua única moeda de troca — e também sua coleira.

Passos rápidos atrás dela. Pesados. Determinados.

— Helena.

A voz de Ricardo Viana saiu baixa, quase gentil, mas carregava o mesmo veneno da interceptação minutos antes. Ela parou, sem se virar.

— Você não tem noventa minutos — disse ele, aproximando-se até o cheiro caro de colônia invadir o espaço dela. — Tem setenta e cinco. O relógio começou quando você aceitou falar comigo nos arbustos.

Helena girou devagar. A luz das tochas tremulava no rosto dele, destacando o sorriso educado que não chegava aos olhos.

— Eu não aceitei nada.

— Aceitou quando não gritou. Quando não correu para o Monteiro contar que eu sei onde sua prima desaparecida está. — Ele ergueu o celular devagar, a tela virada para ela. A foto mostrava Helena dentro do escritório de Arthur, curvada sobre a gaveta aberta, o rosto iluminado pela lanterna do próprio celular. O ângulo era de cima, quase no teto. Alguém a filmara de dentro do cômodo.

O estômago dela despencou.

— Você está me vigiando há quanto tempo?

— Tempo suficiente para saber que você não é Isadora. E tempo suficiente para saber que o Monteiro destruiu a prova física da fraude de 2018, mas guardou o ledger original. Entregue-o para mim antes da meia-noite e eu te dou a localização exata de Isadora. Viva. Depois disso… bem, você já viu o que acontece com quem tenta negociar além do prazo.

Ele entregou um novo bilhete dobrado. Helena o pegou com dedos que não obedeciam direito.

— Setenta e cinco minutos, Helena. Depois disso, o acordo some. E a dívida de vocês dois vence sem negociação.

Ela guardou o papel no decote, junto com os documentos que já carregava como uma bomba-relógio, e correu de volta para dentro da casa sem olhar para trás.

Helena desceu as escadas de serviço com o coração batendo nos ouvidos, o bilhete de Viana dobrado dentro do punho fechado. A garagem subterrânea cheirava a concreto úmido e borracha aquecida. As luzes fluorescentes zumbiam acima das fileiras de carros pretos.

Arthur estava debruçado sobre o capô do SUV blindado, a manga da camisa arregaçada, verificando algo no motor com uma lanterna pequena. Ele não ergueu o olhar imediatamente, mas a tensão nos ombros denunciou que a sentiu chegar.

— Você não deveria estar aqui embaixo sozinha — disse ele, voz baixa.

— E você não deveria estar preparando uma saída sem me avisar.

Helena parou a três metros, mantendo distância.

— Viana me encontrou nos jardins. De novo.

Arthur endireitou o corpo devagar, apagou a lanterna e a guardou no bolso. Seus olhos encontraram os dela, frios e avaliadores.

— E o que ele queria dessa vez?

Ela abriu a mão. O bilhete amassado caiu no chão entre os dois. Arthur não se moveu para pegá-lo.

— Ele diz que sabe onde Isadora está. Em troca dos documentos que eu tenho. Os mesmos que você quer tanto.

O silêncio pesou mais que o motor frio do carro. Arthur deu um passo à frente. Helena recuou meio passo por instinto.

— Eu já transferi oitocentos mil de uma conta pessoal para bloquear temporariamente uma das empresas de fachada que eles usam. Compra de tempo. Não de solução.

Helena piscou, surpresa.

— Oitocentos mil… do seu bolso?

— Não é caridade. É investimento. Se eles me destruírem antes da meia-noite, você também cai. — Ele fez uma pausa, o olhar fixo nela. — Entregue os documentos que você guarda. Em troca, eu te conto exatamente onde Isadora está e o que aconteceu com ela depois de 2018.

Helena sentiu o chão oscilar.

— Você sabe onde ela está?

— Sei o suficiente para saber que Viana está mentindo sobre metade do que promete. Mas eu tenho o resto.

Ela hesitou. Depois abriu o decote o suficiente para tirar os papéis e estendeu-os para ele. Arthur pegou sem tocar a pele dela.

— Isso nos deixa quites?

— Não. Mas nos deixa vivos até amanhã.

Helena apertou o casaco contra o corpo enquanto descia os degraus de serviço atrás de Arthur. O ar úmido da madrugada grudava na pele. Arthur andava dois passos à frente, a chave do carro na mão.

Quando dobraram a última curva, o portão de ferro apareceu sob a luz fraca de um poste. Parado diante dele, de braços cruzados, estava Marcos, o segurança de jaqueta preta.

Arthur parou seco.

— Abre o portão, Marcos.

O segurança inclinou a cabeça.

— Ordens novas, senhor. Ninguém sai até o amanhecer. Nem o senhor.

Helena sentiu o estômago subir até a garganta.

— Quem deu a ordem?

Marcos sorriu de lado.

— O mesmo que sempre pagou meu salário nos últimos três anos. O sr. Viana mandou avisar que o acordo mudou. Ele quer o ledger agora. Original. Entregue na mão dele e talvez o portão abra.

Arthur não respondeu de imediato. Apenas deu mais um passo, calculando a distância.

— Diga a Viana que ele terá o ledger. Mas não hoje. Hoje ele recebe minha palavra de que o pagamento adicional já foi feito. Oitocentos mil. E que, se tentarem nos bloquear de novo, eu abro as contas que eles mais temem.

Marcos hesitou. Depois de um longo segundo, pegou o rádio, murmurou algo e recuou.

— Passem. Mas ele avisou: a próxima não vai ser conversa.

Eles entraram no carro. Arthur deu partida. Helena percebeu que ele não seguia para o centro da cidade, mas para o antigo atelier da família Albuquerque.

O carro parou diante do sobrado torto. A chuva escorria pelas janelas quebradas do antigo atelier, batendo no capô como dedos impacientes. Helena desceu sozinha, os saltos afundando na terra molhada.

— Aqui? — perguntou ela, voz quase engolida pela água.

Arthur contornou o veículo. Tirou do bolso interno do paletó um envelope fino, cor de osso.

— Era aqui que minha tia costurava as últimas peças antes de desaparecer — disse Helena, mais para si mesma.

Ele subiu os degraus atrás dela. A porta rangeu. O cheiro de mofo e tecido velho os envolveu.

Helena parou diante da velha máquina de costura. Arthur ficou a três passos.

— Eu não vim aqui para relembrar histórias de família.

— Então por que viemos?

Ele estendeu o envelope.

— O ledger original. Assinatura da sua tia autorizando a lavagem. Eu guardei porque era a única coisa que me mantinha vivo. Agora é seu.

Helena pegou o envelope. As mãos tremiam.

— Por quê?

— Porque se eu morrer hoje, você morre amanhã. E porque… — Ele parou, o olhar fixo nela. — Porque eu não quero mais ser o único que carrega isso.

No silêncio que se seguiu, com a chuva batendo nas janelas quebradas, eles se encararam sem palavras. O ar entre eles mudou. O desejo cruzou a linha que separava negociação de necessidade. Helena sentiu o peito apertar — não de medo, mas de algo mais perigoso.

Arthur deu um passo. Ela não recuou.

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