Chapter 7
O escritório de Arthur Monteiro cheirava a couro envelhecido e uma austeridade que parecia sufocar o oxigênio. Helena não precisou de mais do que cinco minutos para entender que o cofre lateral, esquecido entreaberto após a saída apressada dele, não guardava apenas contratos de fusão. Ali, entre recibos de liquidez e ordens de pagamento, estava a prova de que a ruína dos Albuquerque em 2018 não fora um acidente de mercado, mas uma execução técnica. Seus dedos tremeram ao folhear as cópias dos registros de transferência. O destinatário final era o mesmo grupo que agora a pressionava, usando sua identidade falsa como corda em volta do pescoço. Arthur não era apenas o predador que a mantinha sob contrato; ele era a presa que tentava desesperadamente não ser devorada pelos mesmos abutres. Ela comparou as datas. O esquema de lavagem de dinheiro que Arthur gerenciava era a espinha dorsal da chantagem que ele próprio sofria. Era um ciclo vicioso de poder: quanto mais Arthur se protegia, mais ele se tornava escravo do grupo que detinha as provas originais. Helena sentiu o peso do bilhete de Ricardo Viana no bolso do vestido. Viana não queria apenas a sua ruína; ele queria o acesso ao cofre de Arthur, usando-a como chave mestra. O som de passos pesados ecoou pelo corredor. O ritmo era inconfundível. Arthur estava voltando.
O ar no escritório tornou-se rarefeito quando a porta se abriu. Arthur Monteiro parou no limiar, a silhueta projetada contra a luz do corredor, os olhos escuros percorrendo Helena com uma intensidade que beirava a violência contida. Ele viu os papéis espalhados, a traição exposta, mas não recuou. Ele apenas fechou a porta atrás de si com um clique metálico que soou como uma sentença.
— Você vasculhou o cofre — a voz de Arthur era um comando de baixa frequência, despido de qualquer surpresa. Ele não se aproximou, mantendo uma distância que parecia um campo de força. — E agora você sabe. O mesmo grupo que perseguiu os Albuquerque não é um fantasma, Helena. Eles são os meus sócios forçados.
— Você não é o salvador, Arthur — ela rebateu, a voz firme apesar do batimento acelerado contra suas costelas. — Você é o cúmplice. E eles estão te devorando por dentro.
Arthur soltou um riso seco, sem humor, e inclinou-se sobre a mesa, invadindo o espaço dela. A luz do abajur desenhava sombras duras em seu rosto, acentuando a tensão em sua mandíbula.
— Eles não querem apenas o meu dinheiro. Eles querem o controle total do que restou daquela fraude de 2018. O ledger original é a única coisa que impede que eles me destruam, e você, por pura imprudência, acabou de se tornar a peça central desse tabuleiro. Se você for exposta, eu caio. Se eu cair, você desaparece.
Eles concordaram em uma trégua tensa. Helena manteve os documentos como sua apólice de seguro, uma garantia de que ele não a descartaria quando o prazo de 22 de março chegasse. Mas, ao sair da mansão para buscar ar, ela foi interceptada por Ricardo Viana nos jardins.
A umidade da noite pesava como chumbo. Viana surgiu de trás de um carvalho centenário, com a postura impecável de um predador. Ele não sorriu. Estendeu um envelope selado com cera, um contraste anacrônico com a tecnologia da chantagem que movia o mundo deles.
— Você está jogando um jogo perigoso, Helena — a voz de Viana era um corte cirúrgico. — Achar que pode se esconder atrás da fortuna de Arthur enquanto o passado dos Albuquerque sangra na mesa dele é, no mínimo, ingênuo. Entregue os documentos que você tirou do escritório. Em troca, eu lhe dou o paradeiro de Isadora. O tempo está acabando, e o relógio da sua ruína financeira está correndo contra a sua lealdade a um homem que é tão criminoso quanto aqueles que destruíram sua família.
Helena olhou para o envelope, depois para as luzes da mansão onde Arthur a esperava, um aliado improvável em uma guerra que ela não escolheu. Ela percebeu, com um aperto no peito, que Viana sabia exatamente o que estava fazendo: ele a empurrava para uma escolha entre a verdade de seu passado e a sobrevivência de seu presente. Ela guardou o bilhete, recusando a oferta de Viana, mas o peso da escolha a deixou paralisada. Ela agora sabia a verdade: Arthur não era apenas o seu carcereiro, ele era a sua única defesa contra o grupo que os caçava. O ultimato de Viana pairava no ar, um espectro que exigia uma resposta antes da meia-noite do dia 22.