Chapter 12
O sangue de Arthur escorria entre os dedos de Helena em jatos quentes e rápidos, encharcando a manga rasgada da camisa social que ainda cheirava a colônia cara e pólvora recente. Galpão 17. Brás. Meia-noite se aproximando como um trem sem freio. Helena pressionava o ferimento no ombro dele com as duas mãos, o tecido da própria blusa já ensopado colando na pele. Isadora soluçava agarrada à cintura dela, rosto enterrado na curva das costas da prima, corpo tremendo em ondas curtas e violentas.
— Para de mexer — Helena ordenou, voz baixa e cortante. — Quanto mais você se mexer, mais sangra.
Arthur estava deitado de lado no concreto sujo, rosto pálido sob a luz crua das lâmpadas industriais. Mesmo assim os olhos continuavam fixos nela, não no teto, não na arma caída a dois metros, não em Viana algemado com as próprias gravatas contra uma pilha de caixotes.
— A transmissão… ainda está rodando — ele murmurou, voz rouca mas firme. — Já vazou para pelo menos três grupos de jornalistas. O celular do Viana está transmitindo direto para o servidor que eu controlo.
Helena sentiu o estômago virar. A confissão de Viana — assassinato do tio, lavagem, sequestro — estava agora em trânsito público, irreversível. E Arthur tinha se colocado na frente da bala para que ela não precisasse carregar mais esse peso sozinha.
— Você é louco — ela disse, quase cuspindo as palavras. — Jogou sua reputação no lixo por uma mulher que nem deveria estar aqui.
Ele tentou sorrir, mas o gesto virou uma careta de dor.
— Não foi por qualquer mulher.
As sirenes cortavam o ar úmido do Brás, cada vez mais próximas, mas dentro da área isolada pela polícia o silêncio parecia mais pesado que os gritos do lado de fora. Helena estava sentada numa cadeira de plástico que rangia, o envelope falso do ledger ainda colado contra as costelas, escondido sob o tecido rasgado do vestido. O delegado — um homem de uns cinquenta anos, barba rala e olhos que pareciam já ter visto todas as versões possíveis daquela história — folheava o celular dele mesmo, assistindo trechos da transmissão ao vivo que ainda rodavam em grupos de WhatsApp e no X.
— A confissão do Viana já tem mais de duzentos mil views em meia hora — disse ele, sem levantar os olhos. — O nome Monteiro está aparecendo em todo lugar junto com “lavagem de dinheiro” e “assassinato”. O senhor Arthur Monteiro acabou de virar trending topic nacional. E não do jeito bom.
Helena engoliu em seco. O gosto de sangue e poeira ainda estava na boca.
— Ele levou um tiro por causa disso — respondeu ela, voz baixa, mas firme. — Não foi teatro.
O delegado ergueu finalmente o olhar.
— Eu sei. O paramédico já confirmou: ferimento de bala no ombro direito, perdeu bastante sangue, mas está estável. O problema é que a bala saiu limpa e o projétil está no chão do galpão. A perícia vai querer saber por que o senhor Monteiro estava armado e atirou primeiro. E por que o celular dele estava transmitindo tudo.
Helena manteve o rosto neutro.
— E o ledger? — perguntou o delegado. — Viana gritou alguma coisa sobre um ledger original antes de ser algemado. Onde está?
Ela sustentou o olhar dele.
— Viana destruiu. Eu vi ele rasgar na frente da câmera.
O delegado inclinou a cabeça, avaliando.
— Espero que sim. Porque se aparecer depois, a história muda. E não a favor de ninguém aqui.
Helena saiu da área isolada com as pernas moles. Encontrou Arthur sendo medicado pelos paramédicos no canto do galpão, ombro enfaixado às pressas, rosto mais pálido do que antes. Ele ergueu os olhos quando a viu e, por um segundo, o alívio atravessou a dor como um raio.
O relógio no painel do SUV marcava 23:47 quando as rodas cantaram na saída do Brás. Helena segurava Isadora contra o peito no banco traseiro, o corpo mole da prima ainda tremendo de leve sob o efeito do sedativo que o médico de plantão da família Monteiro havia injetado no galpão. O cheiro metálico de sangue misturava-se ao couro caro e ao ar-condicionado gelado. Arthur dirigia com a mão esquerda firme no volante, o ombro direito enfaixado às pressas por um dos seguranças antes de saírem. O curativo já apresentava uma mancha escura que crescia devagar.
— Você está sangrando de novo — disse Helena, voz baixa para não acordar Isadora.
— Já parei uma vez. Vai parar de novo.
Ela olhou pela janela. As luzes do viaduto da Marginal piscavam em sequência, contando os segundos que faltavam. Treze minutos.
— O dinheiro não vai resolver isso tudo — murmurou ela. — Mesmo que você quite a dívida agora, Viana já confessou em vídeo. A polícia vai querer o ledger original. E eu ainda tenho ele.
Arthur não respondeu de imediato. A mão esquerda apertou o volante até os nós ficarem brancos.
— Eu sei.
— Então por que está fazendo isso? — A pergunta saiu mais afiada do que ela pretendia. — Você destruiu as provas físicas da fraude de 2018. Poderia ter me deixado afundar com o resto da família.
Ele respirou fundo, o movimento fazendo o curativo se abrir mais um pouco.
— O ledger original continha a assinatura de Isadora na fraude. Mas eu nunca pretendi usar contra ela. Nem contra você. Era só… garantia. Até perceber que você era a única que realmente podia acabar com isso sem se destruir no processo.
Helena fechou os olhos por um segundo.
— E agora?
Às 23:59, Arthur pegou o celular com a mão boa, abriu o app bancário e digitou os dados da conta que Viana havia exigido. A tela piscou. Transferência concluída. R$ 4.780.000,00. Confirmado.
Ele olhou para ela.
— Acabou. A dívida morreu. Mas o resto… o resto depende de você.
A cobertura cheirava a antisséptico e couro caro. O médico já tinha saído há vinte minutos, deixando Arthur com o ombro enfaixado e uma prescrição que ele jogou na mesa sem ler. Helena estava de pé junto à janela panorâmica, de costas para ele, o envelope do ledger original ainda na mão. O papel parecia mais leve agora que a meia-noite tinha passado há quarenta e sete minutos e ninguém tinha batido na porta para cobrar. Isadora dormia no quarto de hóspedes, sedada pelo médico depois de chorar até perder a voz. O silêncio da casa era o tipo que amplifica batimentos cardíacos.
Helena virou-se devagar. Seus olhos encontraram os dele sem desvio.
— Você destruiu as provas físicas em 2018 para me proteger. Não para proteger Isadora. Nem a família. Só a mim.
Arthur não respondeu de imediato. Apoiou a mão boa na borda do sofá e se levantou, ignorando a fisgada que subiu pelo braço.
— Sim.
Ela deu dois passos na direção dele, o envelope estendido entre os dois como uma ponte que podia ser retirada a qualquer segundo.
— Então por que ainda estou aqui segurando isso? Por que você não pegou de volta no galpão, quando Viana estava no chão e a câmera ainda transmitia?
— Porque eu não quero mais o ledger. — A voz dele saiu rouca, não de dor, mas de algo mais antigo. — Quero que você decida o que fazer com ele. Queime, entregue à polícia, guarde para me chantagear daqui a dez anos. Não imponho mais nada.
Helena baixou o envelope devagar.
— O tiro no ombro mudou a forma como eu leio você. Não é mais proteção comprada. É proteção que custa. Que dói. Que deixa marca.
Ele deu um passo curto na direção dela, cuidadoso.
— Então me diga o que você quer, Helena. Porque o contrato morreu à meia-noite. Não existe mais chantagem, nem prazo, nem dívida. Só o que sobrou.
Ela respirou fundo, o peito subindo e descendo visivelmente.
Helena pegou a mão dele — a que não estava ferida —, entrelaçou os dedos com força e sustentou o olhar.
— Então me convença amanhã, quando não houver mais sangue nem sirene nem câmera. Quando for só você e eu, sem nada nos segurando um contra o outro. Se você conseguir isso… talvez eu fique.
Arthur apertou a mão dela de volta, o polegar traçando um arco lento na pele.
— Amanhã, então.
Fora da janela, São Paulo continuava acesa, indiferente. Mas dentro da cobertura, pela primeira vez, o silêncio não era ameaça. Era espaço.