Chapter 5
O Salão de Cristal não era um ambiente de caridade; era uma vitrine de predadores. Sob a luz fria dos lustres de Murano, cada sorriso parecia uma negociação e cada taça de champanhe, um contrato assinado em segredo. Helena sentia o peso do vestido de seda como uma armadura que, a qualquer momento, poderia se transformar em uma mortalha. Ao seu lado, Arthur Monteiro era a única constante: uma muralha de frieza calculada que mantinha os abutres sociais à distância. Mas a máscara de Isadora Albuquerque estava cedendo, e o ar ao seu redor tornava-se cada vez mais rarefeito.
— Você está tensa — Arthur murmurou, a voz baixa, um rosnado contido que apenas ela podia ouvir. Sua mão pousou na base de suas costas. O toque não era um gesto de carinho, mas uma marcação de território que enviava um recado claro a todos os observadores: ela era um ativo sob sua proteção exclusiva.
Antes que Helena pudesse articular uma resposta, o círculo ao redor deles se abriu. Ricardo Viana avançou, ignorando a etiqueta que ditava que se deve esperar uma apresentação formal ao patriarca dos Monteiro. Seus olhos, afiados como bisturis, encontraram os de Helena com uma familiaridade que a fez gelar. Ele não a via como a herdeira Albuquerque; ele via a fraude.
— A herdeira dos Albuquerque parece estar em uma posição mais, digamos, precária do que o habitual — Viana comentou, a voz pingando um veneno polido. — Ou devo dizer, a substituta? O jogo de 2018 foi brilhante, Helena. Mas até os melhores contadores de histórias esquecem que alguns livros-caixa nunca queimam por completo.
O sangue de Helena estagnou. A menção à fraude de 2018 não era apenas uma ameaça; era a confirmação de que sua margem de manobra havia acabado. Arthur, no entanto, não recuou. Ele deu um passo à frente, colocando-se como uma barreira física entre a mulher e o rival.
— A insolência não combina com um convidado da sua estatura, Viana — Arthur disse, a voz cortante como aço. — Se tem algo a dizer, diga com provas ou guarde para o tribunal.
— Provas? — Viana riu, um som seco que não alcançou seus olhos. — Monteiro, você sabe melhor do que ninguém que o que aconteceu em 2018 não precisa de tribunais para destruir uma reputação. Precisa apenas de uma única palavra pública.
Arthur não esperou o término da frase. Com uma firmeza que não admitia contestação, ele agarrou o braço de Helena e a conduziu para longe do salão principal, ignorando os olhares curiosos que, por um instante, silenciaram a orquestra. O corredor lateral, revestido em mármore frio, oferecia o isolamento necessário para a confrontação que se tornara inevitável.
Assim que as portas duplas se fecharam, abafando o som da festa, Arthur a encostou contra a parede, seus olhos escuros dissecando cada traço do rosto dela.
— O que ele sabe exatamente? — Arthur exigiu, a autoridade em seu tom de voz fazendo o ar vibrar.
Helena sentiu o peso do fragmento do ledger escondido em seu decote. O papel parecia queimar contra sua pele, um lembrete constante de que, embora Arthur tivesse destruído a prova física da fraude, o segredo ainda era a arma que mantinha sua família refém.
— Ele sabe quem eu sou, Arthur. E ele sabe que o ledger original não está com ele. Ele quer a sua alavanca — Helena respondeu, mantendo o queixo erguido. Sua dignidade era a única coisa que ela não permitiria que ele consumisse. — Ele sabe que Isadora fugiu porque a dívida de 4,7 milhões é apenas a ponta do iceberg. Ele sabe que isso é uma fraude bancária.
Arthur estreitou os olhos. Por um segundo, a máscara de frieza perfeita oscilou, revelando uma sombra de algo mais perigoso: uma possessividade que não era apenas profissional. Ele se aproximou, invadindo seu espaço pessoal até que Helena pudesse sentir o calor emanando dele.
— Você não vai entregar nada — ele ordenou. — Você vai obedecer a cada instrução minha até a meia-noite de 22 de março. Depois disso, sua dívida estará quitada, mas até lá, você pertence à estratégia dos Monteiro. Entendeu?
Helena sentiu o peso daquela exigência. Era uma proteção, sim, mas era também uma jaula de ouro. Ela entendeu, naquele momento, que Arthur não estava apenas protegendo-a de Viana; ele estava protegendo o segredo que ele mesmo detinha. Ele era o único juiz de sua sentença, e o tempo — marcado pelo relógio no pulso de Arthur — estava correndo.
Mais tarde, na varanda isolada, o ar noturno não trouxe alívio. Viana a encontrou novamente, como se a estivesse caçando. Ele não disse nada, apenas deixou cair um bilhete sobre a mesa de mármore. Helena o abriu com dedos trêmulos. O papel continha um endereço e uma data: um local onde Isadora, a verdadeira herdeira, poderia ser encontrada.
O bilhete era um convite para a traição. Viana queria que ela entregasse Arthur em troca de sua liberdade. Helena olhou para a sala de baile, onde Arthur a observava através das janelas, sua silhueta imponente contra a luz dos lustres. Ela estava presa entre o perigo de um rival que queria destruí-la e a proteção possessiva de um homem que a usava como peça de xadrez. O relógio batia a contagem regressiva, e ela percebeu que, para sobreviver, teria que jogar um jogo muito mais cruel do que qualquer um deles esperava.