A Verdade Oculta
O zumbido das pás do helicóptero sobre o horizonte de São Paulo não era um ruído; era uma contagem regressiva. Faltavam exatamente duas horas para a reunião do conselho. Na pasta de couro sobre o colo de Beatriz, a cópia de segurança do dossiê — o trunfo que Helena não conseguira roubar — parecia pulsar com a gravidade de uma sentença. Ao lado dela, Rafael Viana não exibia a máscara de CEO inabalável. O perfil anguloso, recortado pela luz fria do painel, denunciava uma tensão que transcendia o risco corporativo. Ele mantinha os dedos entrelaçados sobre o joelho, a postura rígida, como se cada rotação do motor fosse uma memória de sua infância sendo forçada a vir à tona.
— O conselho não vai aceitar a substituição sem questionar o paradeiro da noiva original — Beatriz rompeu o silêncio, a voz firme apesar da vibração da aeronave. — Helena tem o dossiê original. Ela controla a narrativa pública.
Rafael virou o rosto. Seus olhos, habitualmente distantes, fixaram-se nos dela com uma intensidade que a fez esquecer o perigo iminente.
— O conselho é um teatro, Beatriz. O que importa é que a propriedade dos Viana, para onde estamos indo, é o único lugar onde as respostas não podem ser corrompidas por ela.
O helicóptero mal cessara o ruído das hélices quando o silêncio da propriedade rural desceu como um manto pesado. O ar, rarefeito e impregnado pelo cheiro de terra úmida e pinheiros, era um contraste brutal com o concreto de São Paulo. Beatriz desceu, os saltos afundando no cascalho, sentindo o olhar de Rafael pesado em suas costas. Ele gesticulou para que os seguranças mantivessem distância.
— Minha mãe espera que estejamos no conselho — Rafael disse, a voz cortante. — O fato de estarmos aqui é nossa única vantagem tática.
Beatriz caminhou em direção à casa principal, uma estrutura de pedra e vidro que exalava o mesmo isolamento gélido que Rafael cultivava. Enquanto ele se afastava para coordenar a segurança, ela deslizou para o escritório secundário. O ambiente cheirava a couro envelhecido e segredos. Ela não estava ali por acaso; se Helena usava a propriedade como um cofre, o rastro do dinheiro estaria ali. Ao abrir a gaveta central, seus dedos tocaram um diário encadernado em veludo. As páginas revelavam transações offshore que ligavam Helena e o sócio de Rafael a um esquema de desvio de fundos que ia além da chantagem familiar. A prova definitiva estava em suas mãos, mas o custo de usá-la era a destruição pública do nome Viana.
A tempestade lá fora transformou a mansão em um bunker. Na biblioteca, Rafael caminhava de um lado para o outro, as mangas da camisa social dobradas até os cotovelos. Ele parou bruscamente, apoiando as mãos na mesa, inclinando-se para ela. O olhar era uma mistura crua de exaustão e uma proteção que soava perigosamente como devoção.
— Se expusermos Helena agora, o conselho terá a desculpa perfeita para destituí-la — Beatriz disse, a voz estável. — Eles alegarão instabilidade familiar e assumirão o controle da holding em menos de uma hora.
— E se não o fizermos, ela continuará sangrando a empresa — ele rebateu, a voz rouca. — O contrato que assinamos era para ser uma proteção, mas agora é o nosso único elo de sobrevivência.
Rafael caminhou até a lareira, a silhueta imponente contra o fogo moribundo.
— Minha mãe não apenas roubou o dossiê. Ela roubou a chance que eu tinha de ser o herdeiro que eles esperavam, sem ser o monstro que criaram. A noiva original… ela era a isca que eu preparei para capturar o sócio de Helena. Eu nunca planejei que você entrasse nesse cenário.
Beatriz sentiu o sangue gelar, mas manteve a coluna ereta. O contrato, antes uma algema dourada, agora parecia um pacto de sangue.
— Você me usou como um escudo — ela afirmou, a voz desprovida de tremor.
Rafael aproximou-se, invadindo seu espaço pessoal, a distância mínima sendo reduzida a nada.
— Eu te usei como um escudo, sim. Mas agora, você é a única pessoa em quem confio para segurar a espada.
O celular de Rafael tocou. Ele atendeu, ouvindo a voz do chefe de segurança. O sangue drenou de seu rosto. Ele desligou e olhou para Beatriz com uma expressão que ela nunca vira antes: medo genuíno.
— Eles localizaram a noiva original. Ela está a poucos quilômetros daqui, mantida em cativeiro pelo sócio de Helena. A condição para soltá-la é a entrega de todas as provas que você encontrou hoje.