A Fenda no Império
O silêncio na mansão Viana não era de paz, mas de uma vigília tensa. Beatriz atravessou o hall de mármore, o som de seus saltos soando como um aviso solitário contra o granito polido. Três horas. O tempo que a separava da reunião do conselho, onde o destino da holding — e o seu próprio pescoço — seriam selados. Rafael estava trancado em uma reunião de crise com os advogados, uma ausência que ela usou como brecha estratégica.
No escritório de Helena, o ar era denso, carregado com o aroma de cera de mogno e um perfume floral que escondia segredos podres. Beatriz fechou a porta com um clique seco. A pequena chave, subtraída do blazer da matriarca durante o jantar, girou na fechadura da gaveta de cedro. O que ela encontrou ali não era apenas ganância; era a prova de uma traição sistêmica. Pastas de couro com o selo da Viana Holding continham transferências milionárias para contas offshore. A assinatura que autorizava os desvios não pertencia ao sócio que Rafael perseguia, mas à própria Helena. A matriarca estava sangrando o império para alimentar um esquema que, ironicamente, servia para chantagear o filho.
Beatriz guardou os documentos contra o peito, sentindo o peso do papel como uma arma carregada. Ela não hesitou; seguiu direto para a Torre Viana.
No trigésimo andar, o escritório de Rafael era um aquário de vidro sobre a metrópole. Ele estava de costas, observando o fluxo de São Paulo com a rigidez de um homem que sentia o chão ceder. Beatriz entrou sem anunciar. O relógio sobre a mesa marcava exatamente três horas para o conselho.
— O inimigo não está apenas no sócio, Rafael — ela disparou, a voz cortante. Ela jogou a pasta sobre a mesa de mogno. — O inimigo está à sua mesa de jantar.
Rafael virou-se. Seus olhos, habitualmente gélidos, estreitaram-se enquanto ele folheava os documentos. A máscara de CEO implacável não caiu, mas rachou. Ele não perguntou como ela conseguiu; ele reconheceu a utilidade da descoberta.
— Você tem noção do que isso implica? — a voz dele era um sussurro perigoso.
— Implica que você está sendo sabotado por quem deveria proteger sua retaguarda — ela rebateu, mantendo a postura. — Se levarmos isso ao conselho, a fusão cai. Mas, se usarmos isso como moeda de troca, desmantelamos a influência de quem realmente manda no jogo.
Rafael aproximou-se, invadindo seu espaço pessoal. O perfume amadeirado dele era uma pressão física. Ele não a tocou, mas a intensidade do olhar era uma promessa de proteção e perigo. Ele abriu uma gaveta oculta e retirou um cartão de metal negro, colocando-o sobre a mesa.
— É uma conta de emergência. Sem limites. Se o conselho virar contra nós, você sai do país antes que qualquer mandado seja expedido — ele declarou, a voz desprovida de qualquer hesitação. Era um gesto de confiança sem precedentes. — Mas, Beatriz, se você ficar, não haverá retorno. Estamos em guerra.
— Eu não vim aqui para fugir, Rafael. Vim para garantir que ninguém mais dite as regras do meu futuro — ela respondeu, pegando o cartão.
Eles revisaram o plano. Beatriz sugeriu uma manobra de desvio: expor as contas do sócio enquanto mantinha a evidência contra Helena como uma faca na garganta da matriarca. Rafael, pela primeira vez, não a via como uma noiva substituta, mas como um ativo estratégico que ele não podia se dar ao luxo de perder.
Ao retornar à mansão, exausta, Beatriz encontrou seu quarto revirado. O porta-joias fora movido, e o fundo falso da escrivaninha apresentava arranhões de uma busca apressada. O inimigo não estava apenas no conselho; ele estava sob o mesmo teto, vigiando cada passo dela. Ela trancou a porta, o coração batendo contra as costelas, ciente de que a caçada havia começado. Ela não era mais a presa; ela era o alvo que revidava.