Inimigos em Comum
A luz azulada dos monitores no escritório de Rafael Viana cortava a penumbra da cobertura, desenhando sombras duras contra o rosto de Beatriz. O zumbido dos servidores parecia um grito contido. Ela não estava ali por curiosidade; estava ali por sobrevivência. Seus dedos, firmes sobre o teclado, navegavam pela estrutura labiríntica da holding até encontrar o arquivo: Cláusula 14.2 - Projeto Ômega. Ali estava a algema dourada. A assinatura que ela fora coagida a dar não a tornava apenas uma noiva; tornava-a a única responsável legal por qualquer irregularidade fiscal encontrada durante a fusão. Rafael a havia posicionado exatamente onde a noiva original, a única pessoa com o conhecimento técnico para desmantelar a farsa, havia se recusado a ficar.
— Você tem exatamente três horas até que o conselho se reúna — a voz de Rafael surgiu das sombras, fria, cortante, desprovida de qualquer calor. — E você está usando esse tempo para cavar sua própria cova ou para tentar sabotar a minha, Beatriz?
Beatriz não saltou, embora seu coração tivesse batido contra suas costelas como um pássaro enjaulado. Ela fechou a aba do navegador com uma calma ensaiada, girando a cadeira de couro para encará-lo. Rafael estava encostado no batente da porta, o paletó impecável, a expressão ilegível, mas os olhos fixos nela com uma intensidade predatória. Ele não parecia furioso; parecia estar medindo a extensão da audácia dela.
— Eu estou tentando entender por que minha dignidade tem um preço tão baixo no seu mercado financeiro, Rafael — ela rebateu, mantendo a voz estável, apesar do desespero que subia pela garganta. Ela não recuou. — A noiva original não fugiu por medo. Ela fugiu porque descobriu que este noivado não é uma fusão, é uma transferência de culpa. Você precisa de um bode expiatório, e o meu pai é a alavanca que garante que eu não farei perguntas.
Rafael caminhou até a mesa, parando a centímetros dela. O perfume amadeirado e a frieza calculada que ele exalava forçavam Beatriz a sustentar o olhar. Ele não negou. Em vez disso, serviu um dedo de uísque, sem lhe oferecer, e olhou para a tela escura do computador.
— O conselho antecipou a votação para daqui a três horas — ele disse, ignorando a acusação. — Se você quer sobreviver a este contrato, pare de investigar o passado e comece a ser a noiva que o mercado espera. A cláusula que você encontrou é o seu escudo, não apenas sua sentença, desde que você saiba como usá-la contra os traidores que estão dentro da minha própria diretoria.
Ele jogou uma pasta de couro sobre a mesa. Dentro, estavam os documentos que a noiva anterior havia deixado para trás — provas que incriminavam o sócio de Rafael, o homem que estava chantageando a família Viana usando o desaparecimento como alavanca. Rafael não era o vilão absoluto; ele era um homem cercado por traidores, e o contrato de Beatriz era, na verdade, a única forma de ele manter o controle da empresa sem ser destruído por dentro.
— Vamos ao evento de caridade — ele ordenou, o tom mudando para uma promessa implícita de proteção. — Se você quer ser minha aliada, Beatriz, precisa provar que é mais perigosa do que os homens que tentam nos derrubar.
No salão de baile do Hotel Unique, o luxo era uma fachada que Beatriz agora sabia ler como um campo de batalha. Quando seu ex-noivo, o homem que roubara os documentos sigilosos da holding, surgiu entre os convidados com um sorriso desdenhoso, a humilhação pública parecia inevitável. Ele se aproximou, pronto para expor a substituição repentina.
— Então, a noiva que sobrou aceitou as sobras? — ele zombou, atraindo a atenção da elite paulistana.
Antes que Beatriz pudesse responder, Rafael estava ao seu lado. Ele não tocou nela, mas sua presença era uma barreira absoluta. Com uma calma gélida, Rafael apresentou ao ex-noivo um documento que provava sua falência iminente e a venda ilegal dos dados da holding. Em segundos, o homem estava sendo escoltado para fora, sua reputação estilhaçada diante de todos. A proteção de Rafael era absoluta, mas o preço era a liberdade de Beatriz. Enquanto o relógio avançava para a reunião do conselho, ela percebeu que a aliança deles era a única coisa que a mantinha viva. Rafael a encarou, o olhar ainda mais perigoso, selando um pacto silencioso: — Você é mais audaciosa do que o contrato previa. Vamos ver se você sobrevive ao que vem a seguir.