A Sombra do Contrato
O ar no salão de baile do Hotel Unique era denso, saturado com o perfume caro de uma elite que tratava escândalos como entretenimento de fim de semana. Beatriz sentia cada olhar como uma lâmina fria percorrendo a seda do vestido que deveria ter sido da irmã, mas que agora a envolvia como uma mortalha de luxo. Ao seu lado, a presença de Rafael era uma muralha de granito. Ele não a tocava, mas sua proximidade era um campo de força que mantinha os curiosos a uma distância calculada.
— Sorria, Beatriz — ele murmurou, a voz baixa, desprovida de qualquer traço de gentileza. — A sua hesitação é um convite para que os abutres comecem a bicar. A sua família não sobrevive a mais um dia de incerteza.
Beatriz forçou os músculos da face a se distenderem. Ela não estava ali por escolha, mas pela necessidade brutal de impedir que o nome de sua família fosse arrastado para a insolvência. Rafael a manteve próxima, a mão firme na curva de sua cintura, marcando território com uma possessividade que não deixava margem para dúvidas: ela era o ativo que ele havia adquirido, e qualquer um que ousasse questionar a legitimidade daquela união enfrentaria o poder implacável do herdeiro.
Mariana, uma socialite cuja língua era tão afiada quanto seu colar de diamantes, aproximou-se com um sorriso predatório. O brilho dos lustres de cristal parecia desenhado para expor falhas, não para celebrar uniões.
— Rafael, querido, que surpresa vê-lo tão... acompanhado — Mariana disse, os olhos percorrendo Beatriz com uma malícia calculada. — Onde está o resto da família, Beatriz? É curioso que o clã dos Vasconcelos tenha optado por uma ausência tão conspícua em um dia de fusão tão lucrativa. Ouvi rumores de que a noiva original tem um gosto peculiar por fugas dramáticas.
Beatriz sentiu o sangue fugir de seu rosto, mas manteve a postura. A pergunta não era sobre etiqueta; era uma sonda em busca de sangue. O segredo da fuga de sua irmã era um abismo que ela tentava cruzar em uma corda bamba de seda.
— Questões de agenda são, por definição, privadas, Mariana — Beatriz respondeu, a voz firme, embora a mão que segurava a taça de cristal tremesse imperceptivelmente.
Antes que Mariana pudesse desferir outro golpe, Rafael deu um passo à frente. O ambiente ao redor pareceu esfriar. Ele não defendeu Beatriz com palavras gentis, mas com uma crueldade polida que fez o sorriso de Mariana vacilar.
— A agenda de minha esposa é assunto meu, Mariana — Rafael disse, a voz desprovida de calor. — Assim como a saúde financeira das empresas que você representa. Seria uma pena se o mercado percebesse que sua atenção está voltada para fofocas de salão em vez de seus próprios balancetes. Sugiro que se retire antes que eu decida auditar sua curiosidade.
Mariana empalideceu e recuou. Beatriz observou a cena, o coração martelando, percebendo que ele era um protetor perigoso que cobrava caro por sua lealdade. Rafael a conduziu para o terraço privativo assim que a porta de vidro os isolou do burburinho.
— Você não hesitou — disse Rafael, caminhando até a mureta de vidro, olhando para o mar de luzes de São Paulo. — Quando sua irmã fugiu, você sabia que assumir o lugar dela era assinar um contrato de servidão. Por que o fez?
— A alternativa era a ruína da minha família. A prisão do meu pai. O que você chama de servidão, eu chamo de dano colateral — ela respondeu, tentando recuperar alguma agência.
Ele virou-se lentamente, seus olhos escuros percorrendo o rosto dela com uma precisão cirúrgica.
— Dano colateral. Uma escolha pragmática. Gosto disso. Mas saiba de uma coisa: este contrato não é apenas sobre o nosso casamento. É sobre o controle total da empresa de seu pai. Você não é apenas uma esposa, Beatriz. Você é a garantia de que cada centavo será devolvido, com juros que você ainda nem começou a calcular.
De volta ao salão, a pressão atingiu o ápice. Os sócios de Rafael cercaram o casal, exigindo uma demonstração de união. Rafael a puxou para perto, fechando o cerco físico e emocional. O toque dele, firme e autoritário, enviou um arrepio pela espinha de Beatriz. Ele sussurrou contra o lóbulo de sua orelha, uma ordem que a fez tremer, não de medo, mas de uma eletricidade desconhecida que ela não conseguia ignorar.