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Chapter 3: O Preço da Proteção

Beatriz confronta Rafael após descobrir que o contrato de casamento é uma manobra de aquisição hostil da empresa de seu pai. Eles negociam uma trégua temporária de uma semana de fachada social, mas a pressão da elite paulistana e a revelação de que ela é apenas um ativo sob custódia deixam claro que a armadilha é muito mais profunda do que ela imaginava.

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O Preço da Proteção

O ar no escritório de Rafael era rarefeito, carregado com o cheiro de couro envelhecido e o zumbido quase imperceptível de servidores de alta performance. Não era um ambiente de trabalho; era um centro de comando. Beatriz sentiu a pressão barométrica subir enquanto seus dedos, firmes apesar da adrenalina, deslizavam sobre a mesa de mogno. Ela não estava ali por curiosidade, mas por necessidade de sobrevivência.

O lacre metálico com o brasão da família de Rafael cedeu com um estalo seco. Dentro da pasta, a verdade não estava escondida em entrelinhas, mas exposta em cronogramas de liquidação detalhados. Meses antes da fuga de sua irmã, Rafael já havia mapeado a dissolução sistemática da empresa de seu pai. Ele não era um salvador; era um abutre que esperava o momento certo para abocanhar os ativos por uma fração do valor. O estômago de Beatriz contraiu-se, mas o som de passos firmes no corredor a forçou a agir. Ela empurrou a pasta para baixo de um maço de relatórios no exato momento em que a porta se abriu.

Rafael entrou, a silhueta imponente preenchendo o batente. Ele não parecia surpreso. Seus olhos cinzentos, frios como o aço de um cofre, fixaram-se nela com uma intensidade que parecia despir suas defesas.

— A curiosidade é um traço perigoso em uma esposa que, tecnicamente, ainda não aprendeu o seu lugar — disse ele, a voz baixa, desprovida de qualquer calor. Ele caminhou até a mesa, parando a centímetros dela. O espaço entre os dois carregava uma carga elétrica, uma pressão que tornava cada respiração uma negociação de poder.

Beatriz não recuou. Ela levantou o queixo, encarando-o.

— Meu lugar não é o de um ativo corporativo a ser liquidado, Rafael. Este contrato não é um casamento. É uma emboscada. Você orquestrou a falência da minha família para garantir que eu não tivesse escolha a não ser assinar.

Rafael inclinou a cabeça, um sorriso gélido tocando seus lábios.

— Escolhas são um luxo que sua família perdeu quando sua irmã fugiu com o caixa. Eu apenas garanti que o legado de seu pai não fosse dissolvido por amadores. Em troca de sua cooperação e de uma exposição social impecável, posso quitar as dívidas pessoais que pendem sobre o seu nome. É uma compensação justa, não acha?

Beatriz sentiu o peso da armadilha. Aceitar significava ser a vitrine de um homem que a estava devorando por dentro, mas negar significava a ruína total.

— Uma semana — ela negociou, a voz firme. — Uma semana de fachada perfeita, e quero garantias de que a empresa não será desmantelada imediatamente.

— O jogo é meu, Beatriz. Mas aceito a aposta — ele respondeu, estendendo a mão. O toque de seus dedos, frios e firmes, selou o pacto.

Horas depois, o salão de baile da Sociedade Paulista brilhava sob o lustre de cristal que parecia uma lâmina suspensa. Beatriz estava ali como um ativo sob custódia. Ao seu lado, Rafael mantinha uma mão firme na curva de sua cintura, um toque que não oferecia conforto, apenas a lembrança constante de que ela lhe pertencia por contrato.

— Sorria, Beatriz. A imprensa não perdoa uma noiva taciturna — sussurrou ele, o hálito quente roçando seu lóbulo.

Um investidor, conhecido pela voracidade com que devorava reputações, aproximou-se com um sorriso predatório.

— Rafael, uma união impressionante. Embora, devo admitir, as notícias sobre a instabilidade emocional da noiva original tenham circulado bastante antes do grande dia. Como o senhor lida com variações de temperamento tão drásticas?

Beatriz sentiu o sangue fugir do rosto, mas antes que pudesse responder, Rafael a puxou para mais perto, sua possessividade não era apenas estratégica; era um escudo.

— A única instabilidade que tolero é a que eu mesmo provoco, caro colega. E garanto que a Sra. Vasconcelos é perfeitamente adequada para o papel que desempenha.

O tom de Rafael foi cortante, silenciando o homem, mas Beatriz sentiu o tremor que percorreu sua espinha. Dentro do Rolls-Royce, no caminho de volta, o silêncio era denso.

— O investidor não mencionou minha irmã por acaso — ela disse, quebrando a tensão. — Eles sabem, Rafael. A farsa está se tornando um alvo.

Ele não se virou, os olhos fixos em um tablet.

— Eles sabem o que eu permito que saibam. O contrato não é apenas sobre o casamento, Beatriz. É sobre o controle total. Sua empresa já foi absorvida legalmente. Você não é minha parceira; você é o único ativo que impede que o mundo saiba que a família Vasconcelos não possui mais nada além do sobrenome que eu decidi preservar.

Beatriz olhou para ele, compreendendo finalmente que o contrato fora apenas o início. Ela era a prisioneira de um legado que já não lhe pertencia, e o homem ao seu lado era o único carcereiro que poderia mantê-la a salvo — ou destruí-la completamente.

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