Traição na Arena
O ar no Nível 12 tinha um gosto metálico e rarefeito, uma diferença gritante da umidade oleosa dos andares inferiores. Kael ajustou o estabilizador do chassi, sentindo o titânio-carbono soldado às pressas vibrar contra o núcleo de energia. O cronômetro em seu visor HUD exibia um vermelho implacável: 13 horas e 42 minutos. O Sindicato não aceitava desculpas, apenas resultados. Ao tentar verificar o registro de reparos, uma lacuna familiar se abriu em sua mente. Ele buscou a imagem da mulher que costumava aparecer em seus sonhos, o rosto que ele supunha ser de sua mãe, mas encontrou apenas um borrão estático, como um arquivo corrompido em uma unidade de memória moribunda. A cada conexão com o log proibido, uma parte de quem ele era era incinerada para alimentar a performance daquela máquina.
— Você parece perdido, sucateiro. — A voz de Valéria cortou o silêncio do hangar de elite como uma lâmina de precisão. Ela estava parada ao lado de seu Mech, uma máquina de linhas agressivas e imaculadas, observando o chassi remendado de Kael com um desdém que ela não se dava ao trabalho de disfarçar. — O Nível 12 é maior do que parece, Kael. Talvez você devesse se preocupar com o seu próprio trajeto para a saída. A arena não perdoa amadores, muito menos aqueles que usam peças roubadas para fingir que pertencem a este andar.
Kael não se virou. Ele sentiu o calor residual do motor irradiando pelas placas de blindagem, um sinal de que o resfriamento estava falhando. — O que eu roubei, eu conquistei em combate, Valéria. O que você usa, foi dado pelo seu sobrenome. Veremos quem sobrevive quando a lataria começar a ceder.
O chamado para a semifinal ecoou pelos corredores, um som mecânico e desprovido de piedade. Kael entrou na arena sob os olhares de desprezo da elite, o peso do chassi protótipo parecendo mais uma âncora do que uma vantagem.
O ar na arena tinha gosto de ozônio e metal queimado. Kael sentiu o primeiro solavanco antes mesmo de ouvir o alerta de proximidade. Seu mech, reforçado com a liga de titânio-carbono, respondeu com um rangido metálico, mas os atuadores do braço direito travaram subitamente. A telemetria piscou em um vermelho agressivo: Erro de Protocolo: Interferência Externa Detectada. À sua frente, o oponente de elite — um bípede esguio montado em um chassi de classe oficial — disparou uma salva de canhões de pulso. O impacto jogou Kael contra a parede de contenção. O público rugiu em escárnio. Para eles, era o fim previsível de um sucateiro subindo alto demais.
— O sistema está em colapso, Kael! — a voz de Mestre Aris soou distorcida pelo comunicador. — Eles estão usando um pulso de supressão de nível militar. Você está cego e imobilizado!
Kael ignorou o conselho. Ele sentiu a familiar e gélida picada da erosão de memória. Ele esqueceu o nome da rua onde crescera, mas o instinto de sobrevivência era mais forte que a identidade. Ele não cedeu. Com um grito abafado, ele forçou um bypass manual, desviando o fluxo de energia diretamente do log proibido para os atuadores de emergência. O mech de Kael explodiu em movimento, uma manobra impossível que ignorou as leis de inércia da Torre. Ele colidiu com o oponente, a blindagem reforçada abrindo o chassi inimigo como uma lata velha. O impacto foi brutal, e o silêncio que se seguiu na arena foi absoluto.
Kael venceu, mas a vitória foi um convite ao desastre. O uso da tecnologia ilegal disparou alarmes em toda a estrutura. A segurança da Torre, comandada pelas sombras do Sindicato, já se movia para o setor. Declarado foragido, Kael percebeu que a única rota para a final e para a sobrevivência era escalar a face externa da Torre, fugindo da jurisdição interna. Enquanto as luzes de busca varriam o hangar, ele iniciou a subida perigosa sob fogo inimigo, com o cronômetro descendo para 13 horas. O topo estava logo acima, mas o abismo abaixo era a única certeza que lhe restava.