O Torneio de Ascensão
O cronômetro do Sindicato cravava 13 horas e 47 minutos no HUD quando Kael forçou a grade de ventilação do Setor de Carga, Nível 10. O módulo de propulsão proibido zumbia contra sua espinha, mantendo a temperatura em 34%, mas cada movimento fazia a blindagem rachada do protótipo gemer como osso seco. Ele caiu no galpão escuro no exato instante em que o blecaute, forçado pelo código do log, varreu o andar. Luzes de emergência piscaram e morreram. Ele não estava ali por luxo; estava por sobrevivência.
Kael ativou o log. O mundo se dissolveu em fluxos de dados verdes. A trava magnética da caixa-forte de Valéria cedeu com um suspiro hidráulico. Ele enfiou as mãos nas placas de titânio-carbono, sentindo o peso frio e glorioso do material. Dez quilos. O suficiente para reforçar o peito do chassi e impedir que o próximo impacto o transformasse em sucata. Um drone de segurança surgiu do teto, disparando. Kael não pensou; ele deixou o módulo de propulsão guiar seu corpo, lançando-se três metros para o lado enquanto o canhão de pulso explodia o concreto onde ele estivera. A integridade do chassi caiu para 61%. Ele escapou para a escuridão, com o alarme ecoando como o sino de um funeral.
Horas depois, em um beco estreito atrás da Arena de Provas, Mestre Aris soldava as placas com mãos trêmulas. O cronômetro do Sindicato marcava 14 horas. — Se você não estabilizar esse núcleo, Kael, vai virar cinzas antes do primeiro round — resmungou o velho. Kael ignorou o cheiro de ozônio e a dor da erosão em sua mente; ele já não lembrava o rosto de sua mãe, apenas a sensação de perda. Ele sincronizou o módulo proibido com a nova liga. O chassi, agora mais denso, parecia um monstro remendado, mas era seu único caminho para o Nível 12.
O portão da arena se abriu com um estrondo. O público, antes indiferente, silenciou ao ver o 'Sucateiro' entrar sem patrocinador. Do outro lado, o Sargento Lirak, um veterano com um mech prateado de elite, sorria. — Oito mil créditos pela cabeça dele! — gritou o locutor. Lirak disparou, mas Kael não recuou. Ele ativou o módulo. O mundo ficou lento. O protótipo avançou com uma velocidade que desafiava a física, a nova liga de titânio-carbono absorvendo o impacto do plasma enquanto ele cravava um golpe preciso no joelho hidráulico de Lirak. O veterano caiu. A plateia rugiu, mas Kael não sentiu vitória; ele sentiu o tempo correndo.
No corredor, Valéria o esperava. Ela exalava poder, um perfume caro que contrastava com o fedor de graxa de Kael. — Você acha que uma liga roubada te torna um de nós? — ela sibilou, os olhos gelados. — A Torre já rotulou seu chassi como lixo. Sua linhagem é uma maldição, Kael. Você não vai sobreviver ao Nível 12.
Kael não parou. Ele sabia que a sabotagem viria. Na semifinal, o sistema travou. O calor subiu para 88%. O comando de sobrecarga de Valéria injetava veneno digital no seu núcleo. O chassi vibrava, prestes a explodir. Ele precisava de processamento para contra-atacar, e o log exigia um preço: memórias. Ele autorizou a purga. O vazio em sua mente foi absoluto, mas o controle do protótipo retornou. Em um movimento fluido e brutal, ele destruiu o mech de elite do oponente. O sistema da Torre, frio e mecânico, anunciou sua promoção para o Nível 12. O duelo de morte contra Valéria era agora inevitável, e cada vitória apenas aumentava a recompensa por sua cabeça.