O Segredo do Subnível
O vapor de refrigeração sibilava contra a blindagem estilhaçada do protótipo enquanto Kael forçava os servomotores a ignorarem o aviso de falha crítica. Dezesseis horas. O cronômetro do Sindicato, projetado em um holóide vermelho no canto do visor, era uma sentença de morte que não parava de contar. Atrás dele, na arena do Nível 10, os gritos de Valéria ainda ecoavam, ordens de uma elite que não aceitava ter sido humilhada por um sucateiro. O rosto dela — gélido, perfeito, odioso — era a última imagem nítida que Kael conseguia evocar. O resto, o nome da mãe, o timbre da voz de Mestre Aris, tudo se desfazia como metal corroído pela sincronia neural com o log proibido.
— Kael, saia daí! — A voz de Aris, distorcida pelo canal privado, era pura urgência. — Eles bloquearam as saídas do setor. Se te pegarem com esse chassi, não haverá julgamento, apenas sucata.
Kael não respondeu. Ele sentia o calor do núcleo subindo pela espinha, uma febre metálica que o log proibido alimentava. O resfriador militar, adquirido com o preço de sua própria dignidade e futuras dívidas, operava a 71%. Era uma margem de erro suicida. Ele não precisava apenas fugir; precisava de uma vantagem que equilibrasse a balança para o duelo de morte no Nível 12.
Ele desviou para os túneis de ventilação, o chassi rangendo sob o esforço. O log zumbiu na nuca, faminto, guiando-o para as entranhas da Torre. Kael invadiu o painel de um elevador de carga industrial, forçando a trava de segurança com um comando de sobrecarga. As portas se abriram com um gemido de metal torto. Ele entrou, selou a cabine e iniciou a descida forçada.
O elevador despencou. A arquitetura da Torre mudou; o metal polido dos níveis superiores deu lugar a vigas enferrujadas e, finalmente, a estruturas que pareciam crescer como ossos antigos. Quando as portas se abriram no Subnível, o ar cheirava a ozônio e tempo esquecido. Ele estava abaixo de tudo.
O chão era um pesadelo de metal e coral petrificado. Kael avançou, cada passo do protótipo ecoando como um coração moribundo. A integridade da blindagem caiu para 58%. O log pulsava, puxando-o para uma câmara central onde uma esfera de dados flutuava, envolta em filamentos ópticos corroídos. Uma IA degradada, um fantasma da era da fundação.
Assim que o log de Kael se conectou, o mundo explodiu em branco.
— Acesso negado. Purga de anomalias iniciada. — A voz da IA invadiu seu crânio como lâminas. Memórias foram arrancadas: o cheiro de pão quente na cozinha, o riso de Aris, o rosto da mãe. Tudo sugado como combustível para a defesa do sistema. O chassi começou a derreter nas juntas, a blindagem borbulhando sob o calor extremo.
— Eu não sou anomalia! — Kael rugiu, forçando a conexão neural até o limite da sanidade. — Eu sou o piloto que você esperou!
A IA resistiu, projetando imagens da Torre sendo construída não como cidade, mas como uma colossal máquina de mineração. Pilotos eram apenas filtros, ferramentas descartáveis. Kael sacrificou mais três anos de infância para manter a conexão. Em troca, o código veio: uma sequência de otimização que estabilizou o núcleo e injetou um módulo de propulsão oculto no chassi.
O superaquecimento caiu para 34%. O protótipo roncou, transformado. Mas a verdade era um peso morto no peito: a Torre era uma mina, e ele era apenas um recurso temporário.
Kael girou o Mech e disparou de volta. A nova propulsão o lançou para cima com uma força brutal. Ele saltou a barreira do Distrito Industrial em um arco que deixou os guardas do Sindicato estáticos. O impacto rachou o concreto, e ele ficou ali, fumegando, enquanto o cronômetro marcava quatorze horas.
O Nível 12 brilhava acima, inalcançável. Lá estava a blindagem que ele precisava, guardada por Valéria. Ele não tinha mais memórias de quem era, mas sabia exatamente o que precisava fazer: destruir a hierarquia que o tratava como peça de reposição.