Duelo de Elite: A Queda da Máscara
O metal do chassi protótipo rangia como osso velho prestes a estalar. Kael arrastou a carcaça para fora dos escombros do túnel de transição, faíscas azuis cuspindo do ombro esquerdo onde o braço tinha sido arrancado. O resfriador militar zumbia contra o núcleo, segurando a integridade em 71%, mas o calor residual ainda cozinhava sua nuca como ferro em brasa.
Dezessete horas. O cronômetro do Sindicato piscava vermelho na viseira, contando os minutos até que os cobradores viessem tomar tudo.
— Kael, porra, responde! — A voz de Mestre Aris estourou no rádio, rouca de estática e cachaça velha. — Tá vivo ou só o ferro tá andando sozinho?
Kael piscou. O nome do velho veio fácil. O rosto da mãe, não. Um buraco cinzento no lugar onde devia estar a risada dela. Ele forçou o Mech a dar um passo. O resfriador sugou energia dos sistemas vitais e a visão periférica escureceu por um segundo.
— Tô aqui, Aris. O resfriador segura... mas a memória vaza. Esqueci o nome dela de novo.
— Merda. Eu avisei que o log cobra caro. Anda. Dezessete horas, moleque. Se não pagar, te jogam no lixo do andar de baixo junto com o chassi.
O túnel subia inclinado até o Nível 11. Kael emergiu na ante-sala do Campo de Provas, um cubo de vidro blindado onde a elite circulava como tubarões bem alimentados. No centro, Valéria esperava. Seu Mech negro com filigranas douradas brilhava sob as luzes frias, perfeito demais para ser honesto.
— Sucata ambulante — a voz dela cortou o ar, alta o suficiente para todos ouvirem. — Hipotecou o futuro e acha que virou gente? Seu chassi fede a óleo barato e desespero de andar baixo. Vou pedir a desclassificação agora mesmo.
Kael parou a três metros. Sentiu o peso dos olhares. Ativou o log proibido por um microssegundo. O calor subiu como agulha na espinha, mas a recompensa veio limpa: micro-vibrações na junta esquerda do tórax de Valéria traíam uma falha que ela escondia sob a pintura impecável.
— Se meu chassi é tão ruim — disse ele, voz firme apesar da vertigem —, por que seus lacaios não conseguiram me matar no túnel? Prove no ringue. Duelo agora. Perdedor entrega o chassi e perde a patente. Aceita, elite?
Silêncio. Depois, Valéria sorriu, fino e cruel.
— Aceito. Vou desmontar você na frente de quem ainda acha que você tem lugar aqui.
A sirene soou. Eles entraram na arena. Kael mergulhou no log, ignorando a dor neural. O calor disparou: 68%, 65%... A integridade despencava a cada milissegundo de sincronia. Valéria avançou. Suas lâminas de energia traçaram arcos perfeitos, precisos como aula de academia. Kael girou. O impacto arrancou placas do seu flanco esquerdo.
Ele não defendeu. Esperou.
Valéria sobrecarregou os propulsores para o golpe final. Kael forçou o resfriador além do limite. Uma cortina de vapor denso explodiu, cegando os sensores dela. No escuro, ele avançou. O log guiou sua mão com precisão cirúrgica. A lâmina de sucata cravou exatamente na junta exposta. Metal rasgou metal com um grito agudo. O Mech de Valéria cambaleou. O gerador piscou vermelho, falhando.
— Acabou — rosnou Kael, erguendo o punho para o golpe que abriria o núcleo dela.
As luzes da arena piscaram. Juízes de manto cinza desceram como corvos. Campos de contenção ativados travaram os dois Mechs a centímetros do fim.
— Duelo suspenso por risco à integridade da arena — anunciou o juiz principal, voz sem emoção. — Ambos os chassis serão apreendidos para análise técnica.
Valéria, tremendo de fúria dentro da cabine, gritou:
— Juízes! Ele quase me destruiu! Exijo duelo de morte no Nível 12. Apostas totais: chassis completos e patentes. Sem interrupção, sem piedade.
Os juízes trocaram olhares rápidos. A ganância pelo log proibido brilhava nos olhos deles como crédito fresco.
— Oficializado — declarou o juiz. — Vinte e quatro horas. Os chassis ficam com os pilotos até lá.
Kael sentiu o chão tremer sob os pés metálicos. O cronômetro do Sindicato agora marcava dezesseis horas. Tinha vencido o espetáculo público, provado que o sucateiro podia sangrar a elite. Mas o ranking subira só para abrir uma escada mais alta e mais afiada. Valéria não queria mais humilhá-lo. Queria enterrá-lo. E a Torre inteira, de repente, farejava o segredo dentro do seu chassi queimado.
A mente dele piscou outra vez. Mais um pedaço da mãe desapareceu. O preço estava cobrado. E o próximo pagamento seria em sangue de verdade.