Sincronia Forçada
O túnel de transição entre o Nível 10 e o 11 era um duto de aço claustrofóbico, banhado pelo vermelho intermitente das luzes de emergência. O cronômetro do Sindicato, projetado na retina de Kael, marcava 18 horas e 12 minutos. A integridade do núcleo do protótipo oscilava em 34%. À frente, três Mechs pretos, modelos de elite da facção de Valéria, bloqueavam a passagem com canhões de plasma já em fase de ignição.
— Ele está encurralado. Destruam o chassi, mas preservem o processador central — a voz do líder ecoou pelo canal aberto, fria e desprovida de humanidade.
Kael sentiu o suor escorrer pelos olhos. O contrato de escolta era uma isca. Se caísse ali, o protótipo seria confiscado e sua dívida de 12.400 créditos selaria seu destino como sucata humana. O log proibido, uma massa de dados corrompidos e brilhantes, pulsava na interface neural como um tumor de silício.
Sincronia necessária para manobra evasiva: 60%. Custo estimado: erosão de memória episódica.
Kael não hesitou. Ele abriu o lacre neural. A dor foi um choque térmico, como se agulhas em brasa perfurassem seu córtex. O rosto de sua mãe, o cheiro de ozônio da primeira oficina de Aris, o calor do sol que ele nunca vira — tudo piscou e foi engolido pelo log. Em troca, o mundo ao seu redor desacelerou. O protótipo, antes um amontoado de metal rangente, tornou-se uma extensão de seus próprios nervos.
Ele girou o torso em um ângulo fisicamente impossível para um chassi daquela classe. O primeiro tiro de plasma passou a centímetros de seu ombro. Kael avançou, a lâmina de energia improvisada cortando o ar com um zumbido agudo. Ele atravessou o cockpit do primeiro Mech com uma precisão cirúrgica. O metal derretido espirrou pelas paredes do túnel. Antes que o segundo pudesse reagir, Kael já estava dentro de sua zona cega, descarregando o canhão de plasma à queima-roupa. A explosão iluminou o túnel como um sol artificial.
O terceiro Mech tentou recuar, mas Kael foi mais rápido, prensando-o contra a parede de aço com um estrondo que fez a estrutura da Torre vibrar. O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelo chiado do núcleo superaquecido.
Kael saiu do cockpit cambaleando. A visão tremia. Ele tentou lembrar o nome da rua onde crescera, mas encontrou apenas um vazio frio.
De volta à oficina de Mestre Aris, o ar estava denso com o cheiro de metal queimado. Aris, com os olhos injetados de cansaço, não precisou perguntar.
— Você está se apagando, Kael — disse o velho, apontando para o monitor. — 34% de integridade. O log está devorando você para manter o chassi funcionando. Se não resfriar esse núcleo, você vai virar um vegetal antes de chegar ao Nível 11.
— Preciso de um resfriador militar — Kael respondeu, a voz rouca. — O Sindicato não vai esperar.
— O mercado negro tem um, mas custa 8.200 créditos. Você não tem nem metade.
— Hipoteco meus ganhos futuros. Tudo o que eu conquistar no Nível 11 é deles.
Aris suspirou, mas iniciou a transferência. A instalação foi brutal. O resfriador encaixou com um clique hidráulico, estabilizando a temperatura em 71%. O sistema notificou: Log proibido evoluindo. Integrando-se ao firmware.
As portas da oficina se abriram com um estrondo. Valéria entrou, ladeada por juízes da Torre. Seu olhar era uma sentença.
— Kael. O Sindicato quer seus créditos, mas eu quero o que você carrega nesse chassi. Um duelo de morte. Aqui, agora. Se vencer, sua dívida é quitada. Se perder, o protótipo é meu e seu nome é apagado dos registros.
Kael limpou o sangue que escorria de seu nariz, sentindo a memória de sua infância desaparecer um pouco mais. Ele não tinha escolha. A ascensão exigia sacrifícios, e ele já tinha dado o primeiro passo para o abismo.
— Aceito — disse Kael, a voz firme. — Mas no ringue oficial do Nível 11. Aposta máxima: nossos chassis. O perdedor desce um andar. Publicamente.
Valéria sorriu, um gesto predatório. Os juízes registraram a aposta. A multidão, antes silenciosa, explodiu em murmúrios. Kael acabara de transformar sua sobrevivência em um espetáculo de alto risco.
Enquanto se preparava para o duelo, a voz do log ecoou em seu córtex, fria e faminta: Sincronia absoluta disponível. Ganho exponencial. Custo: possível apagamento irreversível do eu.
Kael apertou os controles. O cronômetro do Sindicato marcava 17 horas. Ele precisava vencer, mas a que custo? A interface neural pulsava, exigindo uma escolha final: a vitória absoluta ou o que restava de sua humanidade.