O Preço da Ascensão
O ar na oficina de Mestre Aris tinha gosto de metal derretido e desespero. Kael observava o monitor de diagnóstico do chassi: 34% de integridade. O núcleo, um emaranhado de cabos de alta tensão e placas de cerâmica remendadas, pulsava em um vermelho doentio. Faltavam exatamente 18 horas para o prazo do Sindicato. Se os 12.400 créditos não estivessem na conta, o chassi seria confiscado e Kael seria descartado nos níveis inferiores da Torre.
— Você está cavando sua própria cova, moleque — Aris rosnou, jogando uma chave inglesa sobre a bancada. O som metálico ecoou como um tiro. — Esse contrato de escolta nos dutos de ventilação é suicídio. O sistema de refrigeração não foi projetado para túneis de baixa circulação. Você vai fritar o motor antes de chegar ao Nível 11.
Kael não respondeu. Ele ajustou as correias do assento do piloto, sentindo o calor residual do núcleo atravessar o estofado. A oferta de 10.000 créditos de Valéria ainda queimava em sua memória — uma tentativa pública de humilhação que ele recusara. Aceitar significaria entregar o protótipo e sua única chance de ascensão. Ele preferia arriscar a fusão total a se tornar um servo da elite.
— É a única rota de pagamento — Kael disse, a voz cortante. — Se eu não subir, eu caio.
Ele acionou a ignição. O chassi soltou um gemido metálico, um protesto de metal cansado, antes de se mover para o túnel de transição. O espaço ali era claustrofóbico, um labirinto de aço reforçado onde a luz mal alcançava as paredes cobertas de fuligem. Kael sentia cada vibração do motor ressoar em seus ossos. O sistema de navegação piscava alertas em sua retina: Aviso: Dissipação de calor ineficiente. Risco de fusão em 12%.
Ele avançou, mantendo a velocidade constante para evitar o superaquecimento, mas o silêncio no duto era antinatural. Não havia o zumbido habitual dos ventiladores de exaustão. À frente, uma grade de contenção bloqueava o caminho, retorcida por disparos recentes. Kael freou, mas o log de dados proibido, escondido no núcleo, reagiu à pressão. O sistema de navegação travou com um guincho agudo.
Três silhuetas surgiram na penumbra. Eram Mechs pretos, de design aerodinâmico e sem identificação, agachados como predadores. A engenharia era inconfundível: o estilo de Valéria. Eles não estavam ali para escoltar carga; estavam ali para coletar o protótipo e apagar Kael.
O Mech central carregou seu canhão de pulso. O zumbido elétrico fez os dentes de Kael vibrarem. Com o sistema travado e a integridade em queda livre, ele estava encurralado. A interface neural começou a pulsar em sua têmpora, exigindo uma sincronia profunda para contornar o bloqueio de hardware. Era uma conexão perigosa; o log de dados exigia um custo que ele não sabia se poderia pagar. Para retomar o controle, ele teria que forçar a interface a um nível que ameaçava apagar suas próprias memórias.
O Sindicato esperava o pagamento. Valéria esperava sua queda. Kael fechou os olhos, sentindo o log de dados drenar sua sanidade, e forçou o chassi a despertar.