Prova de Fogo no Nível 10
O ar no Nível 10 não era feito de oxigênio; era uma mistura espessa de ozônio, poeira metálica e o cheiro acre de óleo de refrigeração fervendo. Kael sentia o calor irradiando através do cockpit, um zumbido metálico que vibrava em seus dentes. Faltavam dezoito horas para o ultimato do Sindicato. Se os 12.400 créditos não estivessem na conta, o chassi seria confiscado e ele seria descartado nos poços de exaustão. À sua frente, o colosso polido de seu oponente — um modelo de facção com blindagem espelhada — movia-se com a arrogância de quem nunca precisou remendar um núcleo com solda fria.
O sinal de início ecoou pela arena. O oponente avançou, um golpe de martelo hidráulico visando triturar o chassi de Kael. Kael não recuou. Ele ativou o log de dados proibido. O sistema gritou em protesto, os sensores internos tingindo sua visão de escarlate enquanto a temperatura do chassi saltava para níveis críticos. Ele não desviou; forçou uma sobrecarga seletiva nas articulações, contorcendo o protótipo em um ângulo impossível. O martelo passou a centímetros de seu peito, e Kael respondeu com um disparo de plasma de curto alcance, fundindo a junta do ombro do oponente antes de desferir um gancho metálico que jogou o colosso contra a parede da arena. O estrondo foi absoluto. O silêncio que se seguiu, quebrado apenas pelo chiado de metal derretendo, foi a prova de que ele tinha vencido.
Mas a vitória tinha um custo. O chassi paralisou no centro da arena, envolto em uma nuvem de vapor tóxico. Enquanto Kael era içado para o paddock, o painel de diagnóstico piscava em vermelho: Integridade do Núcleo: 34%. Mestre Aris esperava na plataforma, o rosto marcado pela preocupação.
— Você chamou atenção demais, garoto — Aris rosnou, sem olhar para a multidão que ainda rugia. — O Sindicato não aceita créditos de sucateiros. Eles aceitam ativos.
Valéria surgiu então, ladeada por quatro guardas de elite. Ela não parabenizou; ela avaliou. Seu chassi, uma obra de arte em ouro e preto, pairava atrás dela como um predador.
— Sucateiro — disse ela, a voz cortando o barulho do paddock. — Parabéns pela palhaçada. Mas esse protótipo é um erro de sistema. Meu pessoal avaliou seu lixo. Vou te dar dez mil créditos. Pague o Sindicato e suma para o nível inferior de onde você veio.
Kael sentiu o peso da dívida queimando. Dez mil eram quase tudo. Mas o protótipo era o único caminho para fora daquele buraco.
— Não está à venda — respondeu ele, a voz firme, embora seu corpo tremesse pelo esforço. O público silenciou. Desafiar a elite era uma sentença de morte social, mas ele não tinha escolha. Valéria deu um passo à frente, um sorriso gélido nos lábios.
— Como quiser. Você perderá o chassi no próximo contrato. Garanto isso.
Para pagar a diferença restante, Kael aceitou um contrato de escolta de carga para o Nível 11. O túnel de transição parecia uma garganta enferrujada. Ele mal tinha entrado quando o HUD travou. Bloqueio de Protocolo Superior: Nível 12. Dois mechs pretos, sem insígnias, surgiram das sombras, bloqueando a saída. O protótipo paralisou. Kael bateu no console, mas o sistema estava morto. O primeiro disparo atingiu o ombro de seu chassi, e o alerta de integridade despencou. Eles o haviam caçado antes mesmo dele sair da arena.