Dívida de Sangue
O terminal da Arena central não apenas negou o acesso; ele cuspiu o cartão de Kael com um estalo metálico, o visor projetando um "ERRO: PILOTO SOB SANÇÃO ADMINISTRATIVA" em vermelho sangue. O Vulture-4, com o braço direito pendurado por cabos de fibra óptica como um tendão rompido, soltou um chiado de vapor hidráulico. O silêncio que se seguiu no pátio era mais pesado que o rugido dos motores.
Kael não se moveu. Ele sentiu o peso do cronômetro de dívida em seu pulso, agora substituído por um aviso de confisco iminente. O Diretor Vane não estava apenas cobrando créditos; ele estava apagando Kael da existência acadêmica.
— Acesso negado — a voz sintética da arena ecoou, fria e mecânica. — Ativo Vulture-4 marcado para sucateamento. Tempo restante: 59:42.
Acima, o holograma de Vane surgiu, ocupando o espaço onde antes brilhavam os nomes dos campeões. O Diretor sorriu, um gesto que parecia uma lâmina sendo afiada.
— Você venceu uma luta, Kael. Mas a academia é um sistema, não um ringue. Você é um erro de cálculo que estou corrigindo agora.
Kael não deu ao homem o prazer de uma súplica. Ele girou o chassi, o metal rangendo em protesto, e saiu da arena sob o olhar fixo dos outros pilotos. A vitória contra Lívia havia comprado respeito, mas o sistema de Vane havia comprado o silêncio do resto.
*
O esconderijo na Zona de Expurgo cheirava a ozônio e desespero. Lívia estava encostada na parede, o uniforme de elite manchado de graxa. Ela não parecia mais a herdeira intocável; parecia uma conspiradora.
— Se você plugar isso, não há volta — ela disse, deslizando um drive de dados de liga negra pela mesa. — Vane não está apenas desviando fundos. Ele está usando módulos de origem alienígena para forçar a evolução dos mechs. É instável, é proibido e é o que mantém a academia funcionando sob o medo.
Kael pegou o drive. O peso do objeto era irrisório, mas a carga política era uma bomba. Sem acesso à arena, ele era um alvo móvel. Com os dados, ele era uma ameaça existencial.
— Ele quer o Vulture-4 para esconder isso — Kael disse, conectando o drive ao seu terminal portátil para uma verificação rápida. Os arquivos eram uma cascata de códigos não identificados, uma linguagem que parecia pulsar na tela. — Ele não vai me deixar sair vivo da academia.
— Então faça barulho — Lívia respondeu, seus olhos brilhando com uma faísca de desafio. — Se a verdade for pública, o sistema não pode te apagar sem se autodestruir.
*
O cronômetro no pulso de Kael marcava 58 segundos. Ele estava de volta ao átrio, o Vulture-4 arrastando o braço inútil. Drones de segurança, esferas cromadas armadas com pulsos eletromagnéticos, desceram do teto como abutres.
— Kael, o sistema detectou o overclock! — a voz de Lívia soou pelo canal privado, tensa. — Eles vão fritar seus circuitos antes que você chegue ao painel de transmissão!
Kael ignorou a dor que subia pelo assento do piloto. Ele ativou o overclock total. O Vulture-4 soltou um uivo metálico, a estrutura vibrando até o limite da desintegração. Ele avançou, ignorando o primeiro pulso que atingiu seu ombro esquerdo. O impacto quase o jogou contra a parede, mas ele manteve o curso.
— 45 segundos — ele murmurou, a visão turva pelo calor do motor.
Ele forçou o drive no painel de manutenção. O sistema de segurança tentou bloquear, mas o código alienígena, uma vez inserido, agiu como um vírus, devorando as defesas de Vane. Kael sentiu o chassi ceder, o metal gritando sob a sobrecarga.
— Transmitindo — ele rugiu, enquanto as telas de toda a academia, do refeitório aos dormitórios da elite, piscavam e exibiam os dados proibidos.
O Vulture-4 travou, o motor morrendo em um suspiro final de fumaça preta. Kael estava isolado, sem mech, sem arena e marcado como o inimigo número um. Mas, enquanto o caos se espalhava pela academia e os monitores exibiam a verdade, ele sabia que a dívida de sangue tinha sido paga com uma moeda que Vane não poderia confiscar: a revolta.