A Queda da Elite
O Vulture-4 gemia sob a pressão do overclock, um lamento metálico que vibrava na espinha de Kael. O braço direito, uma massa de pistões travados e cabos expostos, arrastava-se pelo concreto da Zona de Expurgo, deixando um rastro de faíscas. O painel de diagnóstico piscava em um vermelho agressivo: OVERCLOCK CRÍTICO: 58 SEGUNDOS PARA FALHA ESTRUTURAL TOTAL.
À sua frente, o chassi imaculado de Lívia bloqueava a saída do setor. Ela não estava em posição de ataque; seu rifle de pulso estava abaixado, voltado para o chão sujo de óleo.
— Você salvou aquele novato, Kael — a voz dela soou pelo canal aberto, desprovida da arrogância habitual. — Por quê? Vane teria deixado o garoto ser sucateado para economizar combustível. Você desperdiçou energia que não tem.
Kael sentiu o calor do motor sobrecarregado irradiar pela cabine. O suor escorria por suas têmporas, mas ele manteve o olhar fixo no monitor. Cada segundo era uma moeda que ele não podia recuperar.
— A sobrevivência não é uma conta matemática, Lívia — Kael respondeu, a voz rouca. — Se eu deixar os outros caírem, o ranking vira uma sentença de morte para todos nós. O sistema de Vane não é meritocracia, é exaustão de recursos.
Lívia deu um passo à frente, posicionando seu Mech para bloquear a linha de visão das câmeras de vigilância. — O sistema não é o que pensamos — ela sussurrou, a voz carregada de uma urgência sombria. — Eles estão minerando algo nos módulos que você encontrou. Você é uma falha de segurança que precisa ser deletada.
O choque foi um soco no estômago, mas Kael não tinha tempo para processar a traição da academia. Ele precisava de uma saída. Ele desafiou Lívia para um duelo de exibição ali mesmo, forçando a transmissão para a rede interna. A multidão nas arquibancadas rugiu, um som gutural que exigia sangue. Ao forçar o duelo, Kael transformou sua sobrevivência em um espetáculo que Vane não poderia ignorar sem causar um motim.
O duelo começou com a rigidez coreografada da elite contra o desespero de um sucateiro. Lívia avançou com a lança de energia brilhando, mas Kael, ignorando a cautela, ajustou o fluxo de resfriamento. Com um solavanco que fez seus dentes vibrarem, ele girou o Vulture-4, usando o peso do braço danificado como um contrapeso rudimentar para uma manobra de desvio impossível. Ele entrou no ponto cego dela. Tinha o ângulo. O canhão de pulso estava travado no reator central.
O público prendeu a respiração. Kael hesitou. Ele não disparou. Em vez disso, desarmou a lança de Lívia com um golpe seco do braço esquerdo, deixando-a exposta, mas intacta. O silêncio na arena foi absoluto antes de explodir em aplausos.
Lívia, derrotada e visivelmente abalada, não atacou. Ela baixou a guarda. — Eles estão nos usando, Kael. Me ajude a entender como Vane está controlando nossos núcleos — ela pediu, a arrogância substituída por uma vulnerabilidade que mudou a dinâmica entre eles para sempre.
Contudo, a vitória foi breve. O Diretor Vane, furioso com a perda de controle, não aceitou o resultado. O sistema de arena travou. As luzes de emergência inundaram o cockpit e uma voz gélida ecoou pelos alto-falantes: "Piloto Kael, sua licença foi revogada. Violação de integridade. Acesso aos recursos da academia encerrado."
Kael olhou para o monitor: 0 segundos de overclock restavam. A dívida tinha sido paga com glória, mas o sistema acabara de fechar a porta. Ele era um fantasma agora, sem acesso a peças, sem arena, e com um chassi prestes a se tornar sucata.