O Teto de Vidro
O Vulture-4 não gemia; ele agonizava. O metal da junta do joelho esquerdo, moído pelo atrito do overclock, soltava faíscas que iluminavam a penumbra da Doca de Manutenção como fogos de artifício em um cemitério. Kael saltou da cabine antes que o sistema de resfriamento entrasse em colapso total, o cheiro acre de ozônio e óleo queimado impregnando seu macacão. O sensor de pressão da arena, projetado no ar, ainda exibia o veredito: 98% de degradação estrutural.
— Saia de perto do chassi, Kael. Isso é uma cena de crime técnico — a voz do Diretor Vane cortou o ar, gélida e precisa. Ele estava parado na entrada da doca, ladeado por dois seguranças da academia. Seus olhos não buscavam a vitória de Kael, mas os pontos de sobrecarga no chassi.
Kael posicionou o corpo entre o Diretor e o peitoral do Vulture-4, onde o módulo proibido ainda pulsava com uma luz âmbar instável. Se Vane confiscasse o mech agora, ele seria descartado, e Kael preso.
— É um reparo de emergência, Diretor — Kael respondeu, a voz firme, apesar da pulsação acelerada. — O regulamento da Zona de Expurgo permite a manutenção imediata para preservar o ativo do aluno. A multidão ainda está lá fora. Eles viram a falha. Se o senhor levar este mech agora, a narrativa de que 'o equipamento de baixo escalão é inútil' morre junto com ele. A academia não quer um mártir, quer um show.
Vane sorriu, um gesto sem calor. — Muito bem. Terá dez minutos. Mas saiba que instalei um limitador de fluxo de energia no seu terminal. Tentar acessar os protocolos de overclock novamente não resultará apenas em sucateamento, mas em banimento imediato. Considere isso uma coleira, Kael.
Assim que Vane se retirou, a oficina tornou-se uma ilha de tensão. Jace surgiu das sombras da baia de carga, o rosto pálido.
— Se você insistir em forçar esse overclock, o núcleo vai fundir — Jace murmurou, aproximando-se. — O limitador que ele instalou atua como um estrangulador térmico. Eles querem que você exploda para justificar o descarte.
Kael não desviou o olhar do terminal. Seus dedos dançavam sobre a interface, ignorando o brilho dos sensores de monitoramento de Vane que varriam o hangar. Cada tentativa de desvio de fluxo encontrava um firewall de nível militar.
— Por que está me ajudando, Jace? — Kael perguntou, sem parar de digitar.
— Minha irmã ainda está sob o contrato deles. Eles a usam como garantia. Os engenheiros originais deixaram uma backdoor no protocolo de resfriamento. É a única chance de contornar o estrangulador.
Jace conectou um drive de dados bruto no console. O código fluiu, uma cascata de caracteres proibidos que começaram a desmantelar o limitador de Vane. De repente, o Vulture-4 vibrou. O sistema de diagnóstico, antes em vermelho estático, começou a pulsar em um azul instável. Kael sentiu a energia fluir, bruta e sem filtros, direto para os atuadores. O ganho era visível: a resposta dos servos subiu 15% em milissegundos.
— Consegui — Kael sussurrou. Mas o sucesso teve um custo imediato. Um alarme estridente ecoou pelos corredores: a segurança da academia detectara a violação.
As portas da oficina foram arrombadas. Lívia liderava a patrulha, seu mech de elite bloqueando a saída. Ela não parecia surpresa, apenas desapontada.
— Kael, você não entende a hierarquia — ela disse, a voz amplificada. — Você é o alvo, não o competidor. A administração já reescreveu os termos da sua permanência.
Kael não esperou. Ele entrou na cabine do Vulture-4. O chassi, reforçado com sucata, estalou sob a carga de energia, mas ele não tinha escolha. Ele executou a sobrecarga forçada. O mundo lá fora se tornou um borrão de luz enquanto ele rompia as defesas do hangar, deixando o rastro de faíscas e metal fundido para trás. O sistema de diagnóstico piscava freneticamente, revelando a dura realidade: a modificação era um suicídio programado.
Sessenta segundos de sobrecarga. É tudo o que eu tenho.