Duelo nas Sombras
O cronômetro no canto da minha visão não era apenas um contador; era um carrasco. Três minutos. Esse era o tempo que o Vulture-4 tinha antes que a degradação estrutural, acelerada pelo overclock, transformasse meu chassi em um caixão de metal retorcido. A Zona de Expurgo, o novo 12º nível da academia, cheirava a ozônio e desespero. As carcaças de mechs descartados serviam como labirinto, e eu era a presa que Vane havia soltado para o abate.
Um vulto se moveu à esquerda, camuflado por um supressor de assinatura térmica. Não era um teste de rotina. Era uma execução.
— Apareça — rosnei, acionando o overclock. O motor rugiu, uma vibração gutural que fez a cabine tremer. A dor da sobrecarga percorreu meus nervos, mas a resposta dos servos foi imediata. O agressor saltou, disparando uma rajada de projéteis de alta densidade. O impacto fez o Vulture-4 inclinar, as placas de sucata que eu mesmo soldei rangendo sob a pressão. Ele não queria me destruir rápido; ele estava drenando meu combustível, calculando o colapso.
Ignorei o alerta de integridade estrutural piscando em neon vermelho. A facção de Lívia queria que eu fosse sucateado? Eles pagariam com ferro fundido. Quando o inimigo avançou, impulsionei o Vulture-4 em um giro de 360 graus, os propulsores cuspindo chamas azuis que chamuscavam o próprio chassi. O calor derretia circuitos internos, mas o risco era a única moeda que eu possuía. Injetei uma sobrecarga bruta nos núcleos de energia, disparando um pulso eletromagnético que varreu a área e fritou a camuflagem do oponente.
O sabotador, exposto, cambaleou. Com um movimento preciso, prendi o manipulador do Vulture no chassi do inimigo, cravando o metal no cockpit. A escotilha cedeu com um guincho metálico. Preparei o soco, esperando o rosto cínico de um mercenário de Lívia, mas o que encontrei me paralisou: era Jace, um colega do escalão D, com os olhos marejados de pavor.
— Jace? — Minha voz falhou. O garoto tremeu, as mãos ainda presas aos controles desativados.
— Vane me obrigou, Kael! — Jace soluçou através do canal aberto. — Ele disse que se eu não destruísse seu núcleo, expulsariam minha irmã dos dormitórios. Eles a deixariam na rua!
A traição cortou mais fundo que qualquer lâmina. Vane não estava apenas testando minha força; ele estava me transformando em um carrasco de meus próprios pares. A dívida piscava em vermelho pulsante: restavam menos de dois minutos. Forcei a retirada do drive de dados do mech de Jace. O sabotador tirou o capacete, e era alguém que eu chamava de amigo.
Caminhei até o Centro de Comando com os dados da sabotagem em mãos. A cada passo, a multidão de pilotos se afastava, olhando-me com medo e um novo tipo de reconhecimento. Diretor Vane estava na plataforma de observação, sua silhueta recortada pelas luzes de neon. Ele não parecia surpreso. Quando entrei no raio de visão dos sensores, ele se inclinou para frente, um sorriso predatório desenhado em seu rosto. Joguei o drive de dados sobre a mesa de controle.
— Kael — a voz dele ecoou pelos alto-falantes, fria e amplificada. — Você traz desordem, mas a eficiência é inegável.
Ele ignorou a prova da chantagem, tratando-a como um detalhe irrelevante. Em vez de punir o esquema, ele anunciou minha promoção imediata na Zona de Expurgo. A multidão gritou meu nome pela primeira vez, e o Diretor Vane sorriu, sabendo que eu agora era a peça mais perigosa de seu jogo.