O Preço da Ascensão
O ar no subsolo do Campo de Provas tinha gosto de cobre e ozônio. Cada respiração era um lembrete do overclock: o Vulture-4 não estava apenas operando, ele estava se consumindo. O chassi rangia sob o peso da própria estrutura, um lamento metálico que ecoava pelas galerias de neon âmbar. Eu não tinha tempo para diagnósticos completos; a Zona de Expurgo, o novo 12º nível imposto por Vane, era uma sentença de morte para qualquer mech que não estivesse no pico da eficiência.
O Sucateiro Cego não levantou os olhos do balcão. Ele sabia quem eu era antes mesmo de eu chegar perto.
— Você está buscando peças série-V, Kael. O tipo de componente que a facção da Lívia comprou em lote esta manhã. Eles não querem que você conserte o Vulture. Eles querem que você se torne uma pilha de sucata no centro da arena para provar que a inovação humana é um erro de cálculo.
Joguei meu cartão de crédito no metal sujo. O saldo piscava em vermelho, uma contagem regressiva de juros agressivos que Vane havia ativado após minha última vitória.
— Eu não preciso de peças de elite. Preciso de sucata reforçada. Aquelas que não estão nos registros de inventário da Academia. Sei que você as esconde atrás da grade de ventilação.
O velho soltou uma risada seca, como engrenagens sem lubrificação. Ele deslizou o cartão, mas não o processou. — Isso não é uma compra, é um suicídio. Se a segurança da Academia rastrear essas peças, você não será sucateado. Você será apagado.
— Se eu não subir de nível, já estou morto — respondi, minha voz firme, apesar do tremor nas mãos.
Ele cedeu. O som de metal sendo arrastado sob o balcão foi a única resposta. Saí com uma bolsa pesada, sentindo o peso do que eu carregava: a única chance de sobrevivência do Vulture.
Nas Docas de Carga, o caminho foi bloqueado. Três homens com o emblema da elite prateada formavam uma barreira. O líder, com uma cicatriz que cortava seu lábio, girou um bastão de choque. O zumbido elétrico era um convite para a humilhação.
— O prodígio de baixo escalão acha que pode andar livremente? — ele provocou, dando um passo à frente.
Não houve conversa. Eu soltei a bolsa, usando o movimento como distração, e avancei. Minha percepção neural disparou, o overclock forçando meu sistema a ignorar a dor crônica. Esquivei do primeiro golpe, senti o calor da eletricidade passar a milímetros do meu rosto, e desferi um chute preciso na articulação do joelho do oponente. Ele caiu, mas o que vi acima dele me paralisou: um sensor de longo alcance, piscando em vermelho, fixado no contêiner. Vane não estava apenas observando; ele estava documentando cada movimento meu para o sistema de ranking.
De volta à oficina, a cirurgia foi brutal. Substituí os atuadores de fábrica por pistões de alta pressão. A silhueta do Vulture-4 mudou; ele parecia mais agressivo, mais instável, uma fera de metal pronta para o abate. Ao apertar o último parafuso, o sistema de ranking da academia emitiu um sinal sonoro. O Diretor Vane havia atualizado meu status: Ativo em Depreciação - Zona de Expurgo.
Olhei para o painel de controle. O mech estava mais letal, mas o preço era uma dívida que eu levaria anos para pagar, se sobrevivesse ao próximo teste. Enquanto limpava o óleo das mãos, uma sombra surgiu na entrada. O sabotador tirou o capacete, e o rosto que revelou me fez perder o fôlego. Era alguém que eu chamava de amigo.