Prova Pública, Escada Revelada
O ar na Arena de Testes de Aço tinha o gosto metálico de ozônio e desespero. O Vulture-4, um amontoado de placas de blindagem remendadas, gemia sob o peso de um chassi que não deveria estar mais em operação. Nas arquibancadas de elite, o Diretor Vane observava com olhos de predador, um sorriso gélido curvando seus lábios. À minha frente, o Predator de um protegido da facção dominante brilhava com um polimento que ofuscava a visão. Ele nem se deu ao trabalho de saudar.
— Lixo não pertence à Academia, Kael. Você é um erro de sistema que eu vou deletar agora — a voz do oponente ecoou pelo canal aberto, carregada de um desdém que não era apenas dele, mas de todo o sistema que nos mantinha na base.
O Predator disparou. O sistema de mira não buscava o centro do meu cockpit; estava travado nos pontos de solda oxidados do meu ombro esquerdo. Se aquele tiro acertasse, o braço mecânico seria arrancado, e minha dívida seria cobrada em peças de sucata. Senti o calor subir pelo processador central. Puxei o gatilho neural: Overclock.
O mundo desacelerou em um borrão de dados. O zumbido agudo do sobreaquecimento vibrava em meus ossos, mas a visão ampliada permitiu que eu visse a trajetória do projétil inimigo como um rastro de luz lenta. Desviei o chassi em uma manobra que desafiava a física do modelo, deixando o Predator exposto. Com um único disparo de precisão, destruí o atuador de joelho do inimigo. O silêncio que se seguiu na arena foi ensurdecedor. O protegido caiu de joelhos, o Predator inútil, enquanto o público, antes silencioso, explodia em murmúrios de choque.
Ao sair da cabine, o cheiro de metal queimado era insuportável. Minhas mãos tremiam pelo feedback tátil. Lívia, a herdeira da facção dominante, bloqueou meu caminho no corredor. Ela não exibia o desprezo habitual, mas uma curiosidade predatória que me causou mais calafrios do que a ameaça de Vane.
— Você contornou o limitador de fábrica. Isso é um crime técnico, Kael — disse ela, a voz baixa, quase um sussurro. — Mas Vane não te enviou para a sucata. Ele te elevou. Por que?
— O Vulture não é sucata, Lívia. É apenas um chassi que vocês não sabem como alimentar — respondi, forçando uma calma que eu não sentia. A atenção pública era um holofote que queimava, e eu estava apenas começando a entender o custo.
Na oficina, o diagnóstico foi brutal. O overclock não era um recurso; era um parasita. O núcleo de energia estava fritando os circuitos de suporte de vida. O cronômetro de dívida, projetado em neon, pulsava implacável. Para estabilizar a carcaça, cortei o fluxo para os estabilizadores de inércia. O terminal da academia apitou, atualizando meu perfil: a dívida fora transferida para uma categoria de juros impagáveis. Eu tinha garantido minha permanência, mas o preço foi uma corda ainda mais apertada no pescoço.
De volta ao Palanque de Comando, Vane subiu ao púlpito. O silêncio era absoluto. Ele deslizou um comando no painel holográfico, e a hierarquia da Proving Ground se expandiu. O ranking, antes uma escada de dez degraus, agora se projetava em doze níveis. Os três últimos estavam marcados em um vermelho carmesim: a 'Zona de Expurgo'.
— A partir de agora, a classificação não é por vitórias acumuladas, mas por taxa de destruição — Vane anunciou, fixando o olhar em mim. — A escada ficou mais alta, cadete. E o ar no topo é rarefeito para quem vive de sucata.
Olhei para o meu Vulture-4, agora um emaranhado de cabos remendados. A silhueta do meu mech mudara, provando que eu podia lutar, mas a dívida era agora um abismo. O jogo tinha mudado, e a subida estava apenas começando.