O Ganho Proibido
O cheiro de ozônio e metal queimado impregnava o hangar 4, um odor que Kael associava ao descarte iminente. Sob a carcaça do Vulture-4, a interface neural piscava em um vermelho agressivo. O protocolo de overclock — uma sequência de códigos fragmentados que ele extraíra dos registros de manutenção da Academia — pulsava no sistema. Kael não estava apenas ignorando o limitador de fábrica; ele estava forçando a máquina a consumir o combustível de reserva, aquele destinado à sobrevivência a longo prazo.
— Vamos lá, sua carcaça de lixo — sussurrou Kael. Ele injetou o comando final. O motor de ignição soltou um chiado agudo, um grito metálico que ecoou pelas paredes vazias. A resposta do Vulture-4 mudou instantaneamente. Onde antes havia um atraso de milissegundos entre o comando e o movimento, agora havia uma fluidez brutal. O chassi reagiu com uma agilidade que aquele modelo não deveria possuir, mas o preço foi imediato: os medidores de temperatura dispararam para a zona crítica. O metal da estrutura, fatigado por anos de uso, começou a chiar sob a carga de energia.
— Relatório de estabilidade, Kael. O Diretor Vane não paga por luzes piscando. — A voz de Lívia cortou o silêncio. Ela caminhava entre as fileiras de mechs com a arrogância de quem nunca conheceu a ameaça da dívida.
Kael congelou o movimento do Vulture-4, escondendo a calibração sobressalente atrás de uma sequência de erro forjada. O calor irradiava do motor central, um aviso tátil de que a máquina estava sendo consumida por dentro. Lívia parou diante dele, os olhos fixos no painel térmico do mech. Ela notou a discrepância: a assinatura de calor não condizia com um chassi sucateado.
— Você parece nervoso, Kael. Ou talvez seu Vulture esteja escondendo algo que não deveria ter — ela provocou, os olhos estreitando-se com uma curiosidade perigosa. — O Diretor Vane exige eficiência. Se você insiste em manter essa sucata, provará sua utilidade na arena agora mesmo. Um combate simulado. Se o seu motor explodir, o problema será resolvido para nós dois.
Na arena de provas, o metal do Vulture-4 gemeu sob a pressão da câmara de teste. À sua frente, um Striker de elite avançou com uma fluidez arrogante, disparando projéteis térmicos para forçar o superaquecimento do modelo de Kael. Kael não recuou. Ele puxou a alavanca de sobrecarga. O Vulture-4 girou, ignorando a inércia que deveria ter travado suas juntas, e deslizou pela lateral da arena, deixando o Striker atingir o vazio. O silêncio na arquibancada foi absoluto. Kael não apenas evitou o dano; ele manobrou em um ângulo que desafiava a física dos manuais da academia. Ele avançou, golpeando o ponto cego do oponente com uma precisão cirúrgica.
O Striker caiu, mas o custo foi visível: o motor do Vulture-4 rugiu em um tom agônico e a carcaça começou a ceder sob a pressão, faíscas saltando das juntas sobrecarregadas.
No Centro de Comando, o Diretor Vane observava as telas de telemetria sem surpresa. Ele girou a cadeira, os olhos fixos em Kael.
— O limitador de fábrica foi contornado. Você provou que a obsolescência é uma escolha política, não mecânica — disse Vane, um sorriso predatório surgindo em seus lábios. — Em vez de sucateá-lo, vou conceder uma extensão. Mas prepare-se: anunciei uma nova categoria de provas. A escada ficou mais alta, Kael. E agora, você é o alvo principal.