Ferro Velho e Dívida Vencida
O cronômetro holográfico no canto da visão de Kael não mentia: 03:12 para a liquidação total. Em letras vermelhas pulsantes, o saldo da dívida de manutenção do seu chassi — um modelo série-G, uma carcaça de metal oxidado que mal segurava a própria estrutura — zombava dele. Se o medidor batesse zero, o Campo de Provas de Aço iniciaria o protocolo de sucateamento automático. Com Kael dentro.
— Vamos, sua lata velha, não me deixe na mão agora — sibilou Kael. Seus dedos, calejados e trêmulos, dançavam sobre os comandos táteis. O chassi soltou um gemido metálico, um rangido de metal contra metal que reverberou pelo cockpit como um grito de agonia. Acima, na galeria de observação, o Diretor Vane assistia com uma elegância gélida, braços cruzados. Vane não buscava excelência; ele buscava motivos para limpar o inventário de pilotos de baixo escalão. Para o Diretor, Kael era apenas um erro contábil esperando para ser deletado.
O simulador de baixa gravidade girou, forçando o chassi a uma inclinação de quarenta e cinco graus. O sistema de resfriamento falhou com um estalo seco. O calor inundou a cabine, o cheiro de ozônio e isolamento queimado tornando o ar denso. A luz de 'Integridade Estrutural' piscou em âmbar, depois em um vermelho febril. O giroscópio travou. O chassi começou a girar descontroladamente em direção à parede de contenção. Kael ignorou os protocolos de segurança e forçou uma sobrecarga manual nos giroscópios laterais. O metal gemeu, estalando sob a pressão, mas a manobra estabilizou o mech no último milissegundo. Vane observou, um sorriso fino e desdenhoso surgindo em seu rosto enquanto o alerta de 'Falha de Integridade' ecoava pelo hangar.
Kael mal teve tempo de sair da cabine antes que a equipe de manutenção de Vane cercasse a máquina. Ele correu para o terminal de diagnóstico, o suor ardendo em seus olhos. O Hangar 4 cheirava a derrota. Ele se jogou sob a carcaça, as chaves magnéticas rangendo enquanto forçava os painéis de acesso. O cronômetro de dívida brilhava sobre a bancada: 00:42:33 para a execução do ativo.
— Onde você está escondendo o erro? — sibilou ele, conectando o cabo de interface no núcleo do sistema. O visor do seu tablet portátil tremeluziu. O log de erros não mostrava desgaste mecânico. O que ele encontrou foi uma linha de código oculta, um setor corrompido que se auto-replicava sempre que o sistema atingia noventa por cento de carga. Kael sentiu o sangue gelar. Não era uma falha de hardware. Era um limitador de desempenho deliberado, um freio de software instalado de fábrica para garantir que modelos antigos nunca superassem os de elite.
Os passos metálicos da equipe de Vane ecoavam contra o concreto, um ritmo de marcha que soava como o martelo de um juiz. Atrás dele, seu chassi parecia um animal ferido. Kael não tinha mais para onde recuar. Com um movimento rápido, ele conectou o terminal de diagnóstico diretamente ao núcleo de processamento. Seus dedos voavam sobre a interface, ignorando o aviso de 'Acesso Não Autorizado'. O registro de dados que ele havia interceptado não era um erro; era um mapa de overclock desenhado por um engenheiro que, assim como Kael, fora descartado pelo sistema de Vane.
— Onde está o seu chassi, Kael? — A voz do Diretor Vane cortou o hangar. Ele estava a dez metros, ladeado por dois técnicos que carregavam as travas de contenção magnética. — O tempo de aluguel expirou. O sistema já marcou sua unidade como sucata.
Kael não respondeu. Ele estava imerso no fluxo de código. O protocolo de overclock era agressivo, uma injeção de energia bruta que contornava todos os limitadores de segurança. Ele confirmou a execução. O motor rugiu com uma potência que o chassi nunca demonstrara, mas o metal começou a ceder sob a pressão da nova carga. O chassi vibrou violentamente, e o alerta de 'Integridade Estrutural em Risco' brilhou em um tom de vermelho que ele nunca vira antes.