Sombras na Academia
O ar no Hangar de Manutenção tinha gosto de ozônio e desespero. Kaelen sentia o calor do CASCA-19 irradiando através de suas próprias terminações nervosas, uma conexão proibida que pulsava em sincronia com seu coração. À sua frente, o Comandante do Campo de Prova, um homem cujas cicatrizes pareciam mapas de batalhas onde o mérito sempre perdia para a linhagem, observava o frame com olhos de predador.
“A leitura de energia na prova de cerco não foi um erro de calibração, Kaelen,” o Comandante disse, a voz ecoando contra o aço frio. Ele apontou para o painel de diagnóstico: a assinatura energética do CASCA-19 oscilava em um vermelho proibitivo. “Isso não é sucata. É tecnologia militar Classe A. O tipo de coisa que não aparece em leilões de descarte.”
Kaelen manteve a postura relaxada, embora o suor frio escorresse por suas costas. Ele sabia que cada segundo de hesitação era uma sentença de confisco. “Comandante, o senhor viu a prova. O frame responde porque eu o ajustei com o pouco que restou da sucata que a Academia me deu. Se a energia oscila, é porque o sistema está tentando compensar a falta de peças adequadas. É desespero, não tecnologia proibida.”
O Comandante estreitou os olhos. Ele não estava convencido, mas o registro oficial da vitória de Kaelen tornava um confisco imediato um risco político. “Vinte e quatro horas,” decretou o oficial. “Teremos uma auditoria técnica completa. Se eu encontrar um único componente de origem militar, você será processado por roubo de propriedade da Federação.”
Kaelen mal teve tempo de digerir a ameaça antes que a sombra de Valerius se projetasse sobre a galeria superior. O herdeiro observava tudo com um sorriso gélido, acompanhado por um Conselheiro da Academia. Valerius não esperaria as vinte e quatro horas. Ele manipulou os protocolos de inspeção na prancheta do Conselheiro, garantindo que a auditoria fosse uma varredura nervosa profunda, capaz de expor a fusão sintética que mantinha o CASCA-19 vivo.
“A inspeção surpresa será antecipada para o final do dia,” anunciou o Conselheiro. “Seis horas. Prepare o frame.”
Kaelen correu para a oficina de Mira. O relógio no pulso marcava 23 horas e 17 minutos para a prova avançada, mas o tempo real de sobrevivência era uma fração disso. O CASCA-19 estava com a carapaça aberta, o peito metálico exposto como um animal abatido. O ruído novo, fino e cirúrgico, vinha do núcleo de alta performance instalado na última aposta.
“Não encosta no conector direito,” Mira avisou, as mãos cobertas de graxa azul, o rosto tenso. “Se isso puxar corrente por ali, eu não te salvo. Eu te coleto em pedaços.”
Kaelen sentia o CASCA-19 como uma segunda coluna. O módulo proibido não era mais apenas uma peça; era hábito, impulso, fome. “Diz que tem saída,” ele exigiu.
Mira jogou um desenho de malha térmica na tela. “Tem uma saída feia. Eu forço o software de telemetria a mentir para os sensores deles. Faço o frame parecer cansado, comum, quase defeituoso. Mas, pra funcionar, preciso empurrar teu núcleo além do limite por trinta segundos enquanto eles fazem a leitura. Se o teu sistema nervoso não aguentar a sobrecarga, você entra em colapso antes mesmo de eles terminarem a inspeção.”
Kaelen não hesitou. Ele se conectou à interface, sentindo o metal fundir-se à sua espinha. A dor inicial foi um choque elétrico que fez sua visão escurecer, mas ele forçou o foco, moldando a assinatura energética para que parecesse inofensiva. Enquanto a equipe de inspeção de Valerius batia aos portões da oficina, Kaelen sentiu o núcleo militar responder, forçando o sistema nervoso a um nível de sincronia que nenhum piloto de baixa patente deveria alcançar. A inspeção começou, e o silêncio na sala era a única coisa que separava Kaelen da destruição total.