O Desafio do Comandante
As portas das Docas de Manutenção do Campo de Prova deslizaram com um rangido metálico, revelando o Comandante. Ele não estava sozinho; dois técnicos da Academia, com pranchetas de vidro temperado, flanqueavam-no como carrascos. O cronômetro no visor de Kaelen marcava 23:58:12. Menos de um dia para a prova avançada. Menos de um dia para provar que o CASCA-19 não era um erro de sistema, mas a única ferramenta capaz de liquidar a dívida de sangue que sufocava sua família.
O CASCA-19 vibrou sob seus pés. O novo núcleo de energia, arrancado de uma aposta sangrenta, pulsava com uma frequência errática, enviando espasmos elétricos pelos canais fundidos ao sistema nervoso de Kaelen. Um arco azul saltou da ombreira do frame — uma falha de isolamento que não escapou aos olhos do Comandante.
— Controle a postura, cadete — a voz do Comandante era uma lâmina fria. — Seus níveis de dissipação térmica estão oscilando. O Conselho não tolera ineficiência.
Mira, na penumbra da bancada, mantinha as mãos sobre os controles de diagnóstico. Ela sussurrou pelo canal privado, a voz carregada de tensão: — Se eles rodarem uma leitura completa, o módulo proibido vai brilhar como um farol. Kaelen, force o resfriamento secundário agora ou eles confiscarão o frame antes da prova.
Kaelen não respondeu. Ele sobrecarregou os dissipadores, criando uma cortina de ruído térmico que mascarou a assinatura do módulo militar. O Comandante observou a manobra com um estreitar de olhos, mas, ao ver a estabilidade aparente, apenas apontou para a Arena de Simulação.
— Prova de cerco. Três oponentes. Nível de elite. Vamos ver se essa máquina é um prodígio ou apenas uma falha que precisa ser descartada.
Dentro da arena, o ambiente tornou-se um pesadelo de luzes estroboscópicas. Três mechs de elite surgiram em projeção holográfica, movendo-se com uma precisão cirúrgica. Kaelen ativou o log de combate proibido. O mundo perdeu a cor, transformando-se em vetores de movimento. O calor na sua espinha tornou-se lancinante, mas a visão tática era absoluta: ele viu a micro-fissura na junta do atacante pesado e o atraso de milissegundos no giro do esguio de ruptura.
Kaelen não lutou; ele desmantelou a coreografia. Com um movimento fluido, ele desviou do primeiro disparo, usou o impulso do núcleo para girar o torso e cravou a lâmina térmica na articulação do segundo mech. A plateia, na tribuna, silenciou. Valerius, observando ao lado do Comandante, apertou o corrimão até os nós dos dedos ficarem brancos. Em menos de três minutos, os três oponentes eram apenas carcaças digitais em chamas.
Kaelen saiu da arena com o CASCA-19 soltando vapor, a integridade estrutural em colapso, mas o ranking de resposta brilhando em verde no painel central. Mira o interceptou no corredor, injetando um estabilizador nos dutos do frame. — Você venceu, mas eles estão te observando como se você fosse uma bomba-relógio — ela avisou. — O Conselho já está questionando a origem desse processamento.
Antes que ele pudesse responder, guardas da Academia o cercaram. Ele foi conduzido ao gabinete do Comandante. Sobre a mesa, hologramas giravam: o consumo de energia, a curva de resposta e a assinatura térmica do CASCA-19. O Comandante não perdeu tempo com cortesias.
— Você me deu uma vitória pública, Kaelen, mas também me deu provas de uma anomalia tecnológica que não deveria existir em um sucateiro — o Comandante inclinou-se, a autoridade institucional pesando mais que o metal do gabinete. — Esse nível de processamento tático… não é um projeto de academia. É tecnologia militar de Classe A, proibida e rastreada.
O comunicador de Kaelen vibrou: Valerius acabara de solicitar uma inspeção técnica surpresa, visando desmantelar o frame antes do próximo duelo. O Comandante fixou os olhos em Kaelen, a pergunta pendendo no ar como uma sentença:
— Onde você conseguiu esses dados de combate?