Engrenagens em Conflito
O selo do Conselho, um holograma vermelho pulsante, flutuava sobre o chassi do CASCA-19 como uma sentença de morte. O Fiscal Vane não perdeu tempo com sutilezas; seus dedos, equipados com sensores de interface, tamborilavam no terminal de diagnóstico enquanto o hangar da seita caía em um silêncio pesado. O ar cheirava a ozônio e desespero.
— A assinatura térmica deste frame oscila em frequências militares proibidas, Kaelen — a voz de Vane era um estalo seco. — Se os logs de energia não coincidirem com o padrão da Academia, o lacre será permanente. Abra o acesso agora.
Kaelen sentiu o suor frio escorrer pela nuca. Ao seu lado, Mira mantinha as mãos trêmulas, mas firmes, sobre os cabos de bypass. Se Vane acessasse o núcleo, o módulo experimental seria exposto, e a família de Kaelen pagaria a dívida de sangue antes do amanhecer. Ele forçou um sorriso, os dedos dançando sobre o painel manual. Ele precisava de uma distração, uma falha de sistema que parecesse negligência, não sabotagem.
Ele sobrecarregou o circuito secundário do estabilizador de coxa. O frame soltou um guincho metálico, as juntas tremendo sob a carga artificial. O alerta âmbar inundou o visor, camuflando a assinatura irregular do módulo proibido sob uma nuvem de ruído térmico. Vane franziu a testa, observando a leitura caótica, e puxou o cabo de interface, visivelmente insatisfeito.
— Você tem sorte, garoto. Mas o campo de prova não será tolerante com sucata mal mantida — Vane disparou antes de sair, deixando o cronômetro de 24 horas para a prova avançada piscando em vermelho vivo.
Kaelen mal teve tempo de respirar. O núcleo de energia marcava apenas 7%. Ele correu para a Arena de Apostas do Subnível, um antro de óleo queimado e promessas quebradas. Lá, ele precisava de um núcleo funcional. A luta foi curta: ele usou a manobrabilidade superior, forçada pelo módulo proibido, para atrair o oponente a uma colisão que estilhaçou a proteção do outro frame. Ele arrancou o núcleo, sentindo o peso do metal quente em suas mãos. Valerius observava das sombras, um sorriso gélido no rosto, deixando claro que a vitória era apenas um adiamento.
De volta à oficina, a instalação do novo núcleo foi um pesadelo. Durante a calibração, o módulo proibido reagiu violentamente. O ar no hangar crepitava com faíscas azuis.
— Kaelen, para! A taxa de sincronia está em 110%! — Mira gritou, mas o painel explodiu em luzes vermelhas.
O calor na cabine saltou para níveis letais. O metal do assento tornou-se um braseiro. Kaelen, em vez de desconectar, agarrou os cabos neurais. A dor foi imediata, uma invasão visceral. Ele sentiu o módulo fundir-se à estrutura do frame, emitindo um pulso térmico que corria por seus próprios nervos, uma conexão inebriante de poder bruto que transformava o metal em extensão de sua vontade.
Horas depois, no Campo de Prova, o Comandante caminhou até ele. Valerius estava logo atrás, confiante no veredito.
— O CASCA-19 apresenta uma dissipação térmica irregular — o Comandante apontou para o leitor. — Isso é uma assinatura de processamento militar de Classe A. Explique-se, Kaelen.
Kaelen sentiu o calor do módulo pulsando sob sua pele. Ele encarou o oficial, a estabilidade da máquina provando que ele não era mais um piloto de sucata, mas uma ameaça. O Comandante estreitou os olhos, a autoridade militar cedendo lugar a uma curiosidade perigosa:
— Onde você conseguiu esses dados de combate?