A Prova Pública
O ar no Campo de Prova era espesso, saturado com o cheiro metálico de ozônio e o suor de centenas de aspirantes. Kaelen sentiu o CASCA-19 vibrar sob seus pés. Não era o ronco habitual de um motor de sucata; era um tremor de alta frequência, um sinal de que o módulo proibido estava drenando energia bruta do núcleo para manter a estabilidade cinética. No visor do cockpit, o contador de inspeção automática marcava 47 horas e 12 minutos. A dívida de sangue de sua família não era um conceito abstrato; era um cronômetro que devorava sua vida segundo a segundo.
— Frame avariado, assinatura energética instável. Aposta de derrota por desclassificação precoce aberta — anunciou o Fiscal do Mercado. Sua voz, amplificada pelo sistema de som, ecoou como uma sentença. A arquibancada respondeu com risadas e vaias.
Kaelen ignorou o escárnio. Seus olhos estavam fixos no Comandante do Campo de Prova, um homem cujo rosto parecia esculpido em granito e desdém. O Comandante observava o CASCA-19 com a frieza de um juiz que já havia assinado a ordem de sucateamento.
— Kaelen — a voz do Comandante cortou o ruído da torcida. — Seu frame está sob registro de anomalia. Se travar ou falhar, eu o declaro sucata recuperável antes mesmo da inspeção. Entendido?
Kaelen não respondeu. Ele engatou a marcha. O oponente, um veterano de terceira patente montado em um Frame-Guard de luxo, avançou com a arrogância de quem possuía recursos ilimitados. Quando o golpe descendente veio, uma massa de aço destinada a esmagar o ombro do CASCA-19, Kaelen não bloqueou. Ele forçou o módulo. A resposta cinética foi violenta; o CASCA-19 fluiu, deslizando milímetros abaixo do punho de aço com uma precisão que desafiava a física daquela carcaça velha. O contra-golpe de Kaelen, um impacto seco no servomotor exposto do rival, fez o Frame-Guard cambalear e colapsar no chão da arena. O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelo zumbido elétrico do módulo superaquecido.
O placar gigante brilhou, colocando o nome de Kaelen no topo. A euforia foi interrompida pelo Comandante, que ergueu a mão, travando a celebração.
— Baia técnica dois. Agora. Quero ver o que exatamente venceu — ordenou ele.
Kaelen guiou o frame até a baia. Mira já esperava, os dedos correndo sobre a tela portátil com uma urgência febril.
— Eles vão abrir uma auditoria de nível militar — sussurrou ela pelo canal privado, sem desviar os olhos dos dados. — Se virem o padrão completo do módulo, estamos mortos.
Kaelen abriu o cockpit, o ar quente e o cheiro de metal queimado escapando para o ambiente. Ele mal teve tempo de descer quando uma notificação agressiva surgiu em seu painel principal, sobrepondo-se aos registros de vitória. Um novo cronômetro começou a girar, implacável e vermelho: 24 horas para a prova de nível avançado ou o frame seria confiscado.
Do outro lado da baia, Valerius observava a tela, seu rosto contorcido em um ódio puro. Ele não via apenas uma vitória; via uma ameaça à sua linhagem. Kaelen sentiu o peso daquele olhar. A vitória na arena não tinha encerrado o problema; tinha apenas aberto a porta para um pesadelo maior. O ladder não estava apenas subindo; estava se tornando uma armadilha, e o próximo degrau exigia um preço que ele ainda não sabia se poderia pagar.