Escalando a Hierarquia
O ar na Zona de Elite não cheirava a suor e graxa como no setor de sucata; cheirava a ozônio, polímeros caros e a frieza estéril de uma sentença de morte. Kaelen Viana sentiu o chassi do 'Sucateiro-01' vibrar com uma frequência errática. O painel de diagnóstico, escondido sob uma camada de poeira industrial, piscava um aviso implacável: 14% de integridade estrutural.
O módulo proibido, instalado no slot de expansão oculto, pulsava como um coração artificial, drenando a energia do núcleo. Cada segundo de operação era um passo mais perto da fusão total dos circuitos.
— Kael, corta a conexão! — Luna Mendes sussurrou, os dedos voando sobre o console portátil. Ela estava escondida atrás de um pilar de suporte, monitorando os sensores da Academia. — A assinatura de energia está vazando. Se o Comandante Silva detectar esse bypass, ele não vai apenas confiscar o chassi. Ele vai apagar o seu registro de piloto.
Kaelen não respondeu. Ele estava focado no cronômetro da rede neural da Academia. Faltavam três minutos para a próxima varredura de rotina. Ele precisava de um ruído, uma distorção que mascarasse a anomalia do módulo.
— Vou criar uma sobrecarga no sistema de ventilação do setor — Kaelen disse, a voz seca. — Isso vai forçar os sensores a recalibrarem por alguns segundos. É a nossa única janela.
— Você vai fritar o que resta dos seus atuadores — Luna retrucou, mas já estava ajustando o pulso eletromagnético para sincronizar com a manobra de Kaelen.
Kaelen forçou o acelerador. O Sucateiro-01 soltou um guincho metálico, as articulações protestando sob o estresse. Ele disparou um pulso de energia bruta no duto de ventilação, criando uma explosão de estática que cegou os sensores de monitoramento. O sistema de alerta da Academia entrou em colapso momentâneo. Foi o suficiente. Ele ocultou a assinatura do módulo, mas o custo foi imediato: o chassi soltou uma faísca azulada e o sistema de resfriamento parou de responder.
Ele não tinha tempo para lamentar. A promoção para a Zona de Elite trazia uma exigência imediata: a coleta de peças de nível militar para a simulação de estresse. Ele se dirigiu ao Depósito de Descarte, um cemitério de titânio onde as peças de elite eram mantidas sob vigilância.
Três sucateiros rivais, servos da administração, bloqueavam a entrada. Seus mechs, modelos de produção em massa, pareciam impecáveis comparados ao chassi remendado de Kaelen.
— O sucateiro azarado quer brincar de elite? — um deles zombou, ativando o cortador de plasma. — O Comandante Silva paga muito bem por qualquer tecnologia ilegal que você carrega nesse lixo.
Kaelen não perdeu tempo com palavras. Ele sobrecarregou o módulo proibido, sentindo a energia fluir por seus membros como um veneno estimulante. O mundo desacelerou. Com um movimento preciso, ele desarmou o primeiro rival com um golpe de impacto no atuador de ombro, deixando-o imobilizado. Antes que os outros dois reagissem, ele avançou, usando a inércia do chassi para derrubar o segundo e imobilizar o terceiro com uma chave de braço hidráulica.
Ele arrancou o núcleo de resfriamento de um chassi 'Vanguard' descartado. A peça era de nível militar, o que ele precisava para estabilizar o módulo. Mas, ao retornar, o silêncio no gabinete do Comandante Silva era mais pesado que qualquer combate.
Silva estava sentado, observando um tablet holográfico. Os dados da telemetria de Kaelen estavam lá, em vermelho vivo.
— Você é uma anomalia, Viana — Silva disse, sem olhar para cima. — O sistema da Academia não comete erros. Ele registra falhas. E você é a maior delas.
Kaelen sentiu o estômago revirar. Ele estava encurralado.
— Eu fiz o que era necessário para sobreviver — Kaelen respondeu, mantendo a voz firme.
Silva levantou-se e caminhou até a janela, observando o Campo de Provas.
— O que você chama de sobrevivência, eu chamo de falha no sistema. Mas talvez... talvez eu possa testar o limite dessa sua 'anomalia'. Aceite o desafio: uma simulação de combate de nível cinco, sem restrições. Se vencer, a anomalia é sua. Se perder, você será desmontado peça por peça na frente de toda a Academia.
Kaelen olhou para o próprio chassi, que emitia um estalo contínuo de metal fundindo. Ele sabia que era uma armadilha, mas não havia caminho de volta. Ele aceitou, sabendo que o abismo entre ele e a elite estava prestes a se tornar um campo de batalha final.