O Módulo Proibido
O ar no Setor de Sucata tinha gosto de metal oxidado e desespero. Kaelen Viana não se importava com o cheiro; ele se importava com o cronômetro no visor de seu chassi: 02:48. O tempo restante antes que o sistema de descarte da Academia declarasse seu mech como "sucata inútil" e o expulsasse da carreira de piloto.
Seus dedos, calejados e sujos de graxa, tremiam enquanto ele forçava o módulo protótipo — uma peça de tecnologia proibida, recuperada de um chassi de elite — no slot de expansão oculto. O metal do mech rangeu, um som estridente de agonia que ecoou pelo galpão.
— Você está tentando se suicidar ou apenas facilitar o trabalho do Silva? — A voz de Luna Mendes cortou o silêncio. Ela surgiu das sombras, o tablet de diagnóstico brilhando com dados que poderiam levá-la à prisão. — Kaelen, isso não é uma melhoria. É uma sentença de morte. Se o sistema central detectar essa assinatura, eles não vão apenas confiscar seu mech; eles vão apagar você do registro.
— Eles já estão fazendo isso, Luna — Kaelen sibilou, ignorando a dor nas mãos enquanto o chassi rejeitava a interface, gerando um ruído térmico que fazia a cabine vibrar. — O limitador de software que instalaram não é uma falha de sistema. É uma coleira. Se eu não quebrar isso agora, serei expulso em menos de três minutos.
Luna suspirou, uma resignação rápida, e conectou seu dispositivo ao chassi. — Se vamos cair, que seja por algo que valha a pena. Vou criar um bypass manual no fluxo de energia. Segure o gatilho.
O tranco foi violento. O módulo, uma joia instável de reconfiguração em tempo real, fundiu-se ao sistema nervoso do mech. O chassi, que antes rangia como um caixão velho, silenciou. Kaelen fechou os olhos, conectando sua consciência aos sensores. A resposta foi brutal. Onde antes havia um atraso de milissegundos, agora havia uma extensão perfeita de seu corpo. Ele deu um passo lateral, um movimento de esquiva de alta classe que o chassi deveria ser incapaz de processar. O concreto sob seus pés estalou sob a potência bruta dos pistões hidráulicos reconfigurados.
— É rápido demais — sussurrou Kaelen, sentindo o calor do núcleo de energia subir pela espinha. Ele não estava apenas pilotando; ele estava dançando entre as limitações técnicas que o haviam mantido na base da cadeia alimentar.
Mas a vitória durou segundos. Um alarme estridente rompeu a calmaria do hangar. O monitor de diagnóstico piscou em vermelho: Alerta de Inspeção Classe-A.
— Kael, eles estão vindo — a voz de Luna soou baixa pelo comunicador. — O Comandante Silva não está fazendo uma inspeção de rotina. Ele está rastreando a assinatura de energia da anomalia. Se ele escanear esse núcleo, você será preso por sabotagem.
Passos pesados ecoaram pelo piso metálico. O Comandante Silva surgiu na entrada, sua capa impecável contrastando com a sujeira industrial. Atrás dele, dois guardas portavam scanners de varredura profunda.
— Viana — a voz de Silva era gélida. — Relatórios indicam um pico de energia anômalo vindo deste setor. O que você está escondendo sob essa carcaça de sucata?
Kaelen sentiu o coração martelar. Silva estendeu um scanner manual, o dispositivo emitindo um pulso azul que varreu a blindagem. Kaelen digitou freneticamente o código de camuflagem de Luna. O scanner oscilou, a luz azul flutuando entre o perigo e o normal. O tempo parecia ter parado. Se o sistema detectasse a reconfiguração em tempo real, seria o fim. Silva deu um passo à frente, os olhos fixos no chassi de Kaelen, o desdém transformando-se em uma curiosidade letal que prometia muito mais do que apenas uma expulsão.