A Renegociação
O mármore da sala de reuniões da Viana Holding parecia mais frio que o habitual, um contraste gélido com o calor da revolta que fervia sob a pele de Helena. Ela ocupava a cabeceira, a coluna ereta, o peso da escritura original dentro da pasta de couro à sua frente servindo como um escudo contra os olhares predatórios dos conselheiros. Ao seu lado, Rafael permanecia imóvel, o terno impecável dissimulando a bandagem no ombro ferido, seu olhar fixo nos homens que, até quarenta e oito horas atrás, a tratavam como uma garçonete sem nome.
Beatriz, pálida sob a maquiagem cara, tamborilava os dedos na mesa de mogno.
— Isso é um teatro de mau gosto — sibilou ela, a voz trêmula de fúria contida. — Uma impostora, armada com documentos de procedência duvidosa e um herdeiro ferido por sua própria imprudência, não pode reivindicar o controle da Viana. Vocês realmente permitirão que essa oportunista dite o futuro da nossa empresa?
Helena não piscou. Ela abriu a pasta lentamente, deixando que o silêncio se estendesse até se tornar insuportável.
— O teatro acabou, Beatriz — disse Helena, a voz firme e desprovida de hesitação. — O conselho não está aqui por sua causa, mas porque os registros de movimentação financeira que recuperei provam que você drenou os fundos da holding para contas offshore desde que meu pai foi afastado.
Ela deslizou um documento sobre a mesa. Os olhos dos conselheiros saltaram sobre as cifras. O murmúrio de choque foi a sentença final de Beatriz. Em minutos, a segurança a escoltava para fora, mas o olhar de ódio que a madrasta lançou ao sair prometia que a guerra estava longe de terminar.
Mais tarde, no escritório presidencial, a máscara de invencibilidade de Rafael finalmente cedeu. Ele estava sentado atrás da mesa, a postura rígida sendo mantida por puro esforço de vontade, embora a palidez sob sua pele bronzeada denunciasse a dor. O ombro ferido era uma dívida que Helena não sabia como pagar.
— Você deveria estar descansando, não assinando documentos de transferência — Helena disse, aproximando-se da mesa. Ela contornou o móvel e, sem pedir permissão, começou a desabotoar o paletó de Rafael. O calor da pele dele sob o tecido fino era um lembrete constante do sacrifício que ele fizera. — Por que você continua lutando quando o contrato já foi cumprido?
Rafael segurou o pulso dela, impedindo-a de continuar, seus olhos escuros fixos nos dela com uma intensidade que a fez prender a respiração.
— O conselho precisava ver que a transição é absoluta. Se eu demonstrar fraqueza, Beatriz encontrará uma fresta. Mas, honestamente? Sem você, eu não teria motivos para lutar contra os predadores da própria empresa.
O ar na suíte presidencial parecia rarefeito. Rafael levantou-se, ignorando a dor, e aproximou-se de Helena. A distância entre eles, antes uma fronteira profissional, agora parecia uma ponte que ele estava determinado a cruzar.
— O contrato de fusão foi a nossa porta de entrada, mas não pode ser o nosso fim — ele disse, a voz rouca. — Eu não quero mais que o nosso casamento seja apenas um arranjo de fachada. Quero que você seja minha aliada, minha parceira, por escolha, não por obrigação.
Helena sentiu o chão oscilar. Ela não podia mais negar a atração magnética que a puxava para ele.
— Você sabe que, se eu aceitar, não serei mais a mulher que você pode controlar — ela desafiou, mantendo a dignidade que tanto lhe custara conquistar.
— Eu não quero controlar você, Helena. Eu quero você ao meu lado para governar tudo o que é nosso — ele respondeu, tocando o rosto dela com uma suavidade que desarmava qualquer resistência.
Antes que ela pudesse responder, o celular de Helena vibrou violentamente sobre a mesa de mármore. Uma notificação do hospital onde seu pai estava internado. O texto era curto, cirúrgico: 'Sua madrasta acaba de apresentar documentos de interdição total. Seu pai será transferido. Não há recurso.'
O sangue de Helena gelou. O triunfo corporativo desmoronou diante da fragilidade física de seu pai. Ela encarou Rafael, cujos olhos escureceram ao ler a mensagem. Beatriz não estava apenas tentando retomar a empresa; ela estava usando o pai de Helena como o último peão em um jogo de vida ou morte. O casamento, antes uma farsa, era agora a única proteção legal que restava para salvar a família de Helena.