A Máscara de Noiva
O cetim marfim do vestido de noiva, originalmente talhado para outra mulher, parecia uma armadura de gelo contra a pele de Beatriz. Na suíte privativa do Hotel Valente, o silêncio era interrompido apenas pelo tilintar metálico das agulhas das costureiras. Elas não a tratavam como uma noiva, mas como um manequim de luxo, ajustando cada dobra para que a fachada de perfeição fosse inquestionável. Beatriz observou seu reflexo no espelho de cristal. A mulher que a encarava era uma estranha, uma versão polida e inofensiva de si mesma.
Seus olhos desceram para a etiqueta interna: o monograma da família que Enzo Valente esperava desesperadamente. A noiva original desaparecera há quarenta e oito horas, deixando um vazio que Beatriz agora ocupava por contrato. A farsa era visceral. Ela sentia o peso do documento escondido na forração de sua bolsa, trancada no cofre do quarto — a prova de que o império Valente fora erguido sobre o roubo do legado Alencar.
— O ajuste está perfeito, senhorita — disse a estilista, sem esconder o desdém técnico. — O senhor Valente não tolera atrasos.
Quando a porta se abriu, Enzo entrou, sua presença preenchendo o ambiente com uma autoridade que exigia submissão. Ele não a olhou nos olhos; avaliou a silhueta, a postura, a eficácia do disfarce.
— Você é uma peça necessária — disse ele, a voz desprovida de calor. — No salão, você não é Beatriz Alencar. Você é a extensão da minha holding. Se a sua performance falhar, a dívida de sua tia será o menor dos seus problemas.
No salão de gala, o ar parecia congelar. Beatriz manteve a postura impecável, embora cada olhar cobiçoso dos convidados fosse um lembrete: ela estava ali como um ativo. Enzo, ao seu lado, era uma presença de aço e sombra. Sua mão, firme em sua lombar, guiava-a com uma possessividade que não era afeto, mas sinalização estratégica.
— A noiva original sempre foi tão... discreta? — A voz de Ricardo Fontes, um acionista minoritário, cortou o burburinho. Ele a observava com um sorriso felino, buscando a falha na farsa. — Ouvi dizer que ela tinha uma predileção por joias que a senhorita, curiosamente, não está usando.
Beatriz sustentou o olhar, sem piscar.
— A discrição é uma virtude que poucos nesta sala possuem, senhor Fontes — respondeu ela, a voz fria. — E quanto às joias, prefiro a elegância da simplicidade. O senhor deveria experimentar o mesmo; talvez assim notasse que o valor de uma aliança não reside na pedra, mas na solidez do contrato que ela representa.
O silêncio foi cortante. Ricardo empalideceu, mas antes que pudesse retrucar, Enzo deu um passo à frente, colocando-se entre eles. O magnata não apenas a protegeu; ele a reivindicou publicamente.
— Minha noiva não precisa se justificar sobre escolhas de estilo, Fontes. Preocupe-se com a sua margem de lucro, que anda tão volátil quanto sua língua.
O escândalo foi imediato. Enzo sacrificara sua reputação de magnata intocável ao descer ao nível de uma disputa pública para defendê-la. Mais tarde, na varanda privativa, a tensão era palpável. Enzo fechou a porta de vidro, isolando-os.
— Você o provocou — disse ele, um rosnado baixo. — Por quê?
— A proteção tem um preço, Sr. Valente — respondeu Beatriz, com uma serenidade que não condizia com sua posição de substituta. — Se eu não for vista como sua protegida incondicional, minha presença aqui é inútil. Eu apenas acelerei o processo de validação pública.
Enzo a puxou para perto, selando o acordo diante de todos que os observavam através do vidro. O flash das câmeras iluminou o rosto de Beatriz enquanto ele sussurrava, possessivo:
— Sorria. Agora você é uma Valente.
De volta à torre, Enzo foi chamado para uma emergência corporativa, deixando Beatriz sozinha no escritório por alguns minutos. A oportunidade era um convite perigoso. Ela se aproximou da mesa, onde o cofre estava entreaberto. O documento lá dentro não era sobre a fusão; era sobre o passado dos Alencar. Beatriz sentiu o sangue gelar ao ler o nome de seu pai em uma ordem de liquidação assinada por um Valente.