O Preço da Proximidade
O silêncio na suíte privada dos Valente era uma faca de dois gumes, cortante e gélida. Enzo jogou o paletó sobre a poltrona de couro, o movimento brusco revelando uma mancha de sangue seco sob o punho da camisa branca — um lembrete do incidente contido durante a gala. Ele tentou ocultar a mão ferida atrás do corpo, mas Beatriz já tinha visto.
— Você não deveria ter ignorado isso — disse ela, aproximando-se sem pedir permissão. Sua voz era firme, a de uma estrategista que entende o valor da observação. — O protocolo dos Valente é impecável, mas o sangue mancha o mármore tão facilmente quanto qualquer outro.
Enzo parou, a mandíbula travada em uma linha dura. Ele a observou com olhos que ainda tentavam decifrar a mulher que ele contratara como um ativo, mas que agora parecia uma ameaça de inteligência imprevisível. Ao tocar a pele dele para limpar o ferimento, Beatriz não buscou a intimidade, mas a brecha. O toque era preciso, clínico. Enquanto o algodão roçava a ferida, ela notou a rigidez muscular de Enzo; ele estava acostumado a proteger, não a ser cuidado. Cada movimento dela era um teste para ver onde ele guardava suas defesas.
Mais tarde, no jardim de inverno, o ar estava carregado pelo perfume artificial de orquídeas. Cecília aguardava com os olhos afiados como navalhas, mapeando o perímetro.
— Você está brincando com fogo, Beatriz — sibilou a tia. — O contrato era para salvar a casa, não para se sentar à mesa do leão. Ele é o arquiteto da nossa ruína.
— Ele precisa da fusão, Cecília — rebateu Beatriz, mantendo a voz baixa. — A noiva original não desapareceu por acaso. Ela levou a chave da conta que controla o fundo de reserva da holding, a mesma conta que meu pai deixou bloqueada sob o meu nome. Enquanto ele acreditar que eu sou apenas uma substituta descartável, eu tenho o privilégio do anonimato.
De volta ao escritório, o ambiente cheirava a mogno e papel envelhecido. Enzo, ainda com o curativo no maxilar, não parecia a figura frágil que ela esperava. Ele deslizou um cartão magnético preto sobre a mesa de carvalho.
— Considerando que você salvou a minha reputação naquela sala cheia de abutres, suponho que tenha ganhado o direito de transitar. Se precisar de algo, a casa está à sua disposição.
Beatriz pegou o cartão. Era um símbolo de status que ela nunca tivera, mas que agora era sua arma. Ela sentiu o peso da dívida que ele acreditava ter criado. Ele achava que a estava compensando por lealdade; ela sabia que estava ganhando o acesso necessário para destruí-lo.
Quando Enzo finalmente saiu para uma conferência urgente, Beatriz não hesitou. Ela se aproximou da estante, seus dedos encontrando a saliência oculta atrás de um volume de direito comercial. O cofre cedeu com um clique seco. Lá dentro, não havia apenas títulos de propriedade. Havia uma pasta de couro gasta com o selo dos Alencar, contendo a ordem de liquidação assinada pelo pai de Enzo. Era a prova cabal de que a ruína de sua família fora um ato deliberado de pirataria corporativa.
Beatriz respirava com dificuldade, a pasta de couro contra o peito, quando uma sombra se projetou na porta. Ricardo, o rival corporativo de Enzo, estava encostado no batente, observando-a com um sorriso predatório.
— Eles acham que você é uma fraude, Beatriz — sussurrou ele, aproximando-se com passos silenciosos. — Mas eu sei que você é perigosa. E agora, ambos sabemos o que você guarda sob esse vestido.