O Contrato de Vidro
O escritório de Enzo Valente não era um ambiente de trabalho; era um altar de poder. O ar, filtrado e gelado, cheirava a couro legítimo e a uma austeridade que parecia sugar o oxigênio de quem não pertencia àquele andar. Beatriz Alencar manteve a coluna ereta, ignorando o tremor quase imperceptível em suas mãos. Dentro de sua bolsa, o envelope pardo com o aviso de despejo de sua tia Cecília pesava como uma sentença de morte social.
Enzo não levantou os olhos quando ela entrou. Ele assinava documentos com uma caneta de metal escovado, cada traço seu selando destinos corporativos. Quando finalmente parou, seus olhos cinzentos encontraram os dela com uma frieza desprovida de qualquer humanidade.
— Atrasada, senhorita Alencar. Mas suponho que a pontualidade seja um luxo para quem vive de favores da família — a voz dele era cortante, uma lâmina polida.
Beatriz sentiu o sangue pulsar nas têmporas, mas não cedeu. Ela não estava ali por orgulho; estava ali por sobrevivência.
— A dívida da minha tia foi transferida para a sua holding na semana passada, Sr. Valente. Vim resolver os termos do pagamento. Não busco favores, apenas a liquidação do que é devido.
Enzo soltou uma risada seca, sem humor, e empurrou uma pasta de couro sobre a mesa de mogno. O documento, pesado e oficial, parecia pulsar sob a luz artificial.
— A dívida de Cecília é um detalhe irrelevante. A noiva que eu contratei para a fusão Valente-Almeida desapareceu há quarenta e oito horas. O mercado não tolera incertezas, e meu conselho administrativo não tolera quebra de contratos. Você vai assumir o lugar dela.
Beatriz encarou o contrato. O parágrafo 4.2 não era sobre casamento; era sobre o controle absoluto dos ativos Alencar, um legado que, por direito, deveria ser dela, mas que fora usurpado após a desgraça de sua família. Ela sentiu o peso da prova que guardava na bolsa — um documento que, se revelado, transformaria aquele império de cristal em pó. Mas não era o momento.
— Você quer uma substituta, não uma esposa — ela disse, a voz firme apesar da pulsação acelerada em seu pescoço.
— Eu quero um escudo legal contra a ausência da minha pretendente original — Enzo retrucou, levantando-se. Sua figura imponente projetava uma sombra que parecia engolir Beatriz. — Em troca, a dívida de Cecília é perdoada e a casa será preservada. Se recusar, ela estará na rua antes do pôr do sol.
Beatriz sentiu o gosto amargo da derrota, mas também a faísca da oportunidade. Ao assinar, ela não estava apenas se vendendo; estava garantindo uma entrada legítima nas entranhas do império Valente. Ela pegou a caneta, sentindo o peso do metal, e assinou com um traço firme.
— Feito — ela disse, devolvendo a pasta.
O ar-condicionado do edifício não era capaz de dissipar o calor que irradiava da calçada quando saíram. Beatriz ajustou a gola do blazer, sentindo o tecido roçar sua pele como uma lixa. Ao seu lado, Enzo caminhava com a postura de quem possuía a própria gravidade. Ele não a tocava, mas sua proximidade era uma muralha de autoridade.
— Lembre-se — a voz de Enzo era um baixo profundo, carregado de uma sentença. — Você não é apenas uma acompanhante. Você é a mulher que escolhi para selar o futuro dos meus negócios. Qualquer vacilo, e o mundo saberá exatamente quem você é: uma Alencar sem eira nem beira, desesperada por migalhas.
Beatriz manteve o olhar fixo nas portas de vidro giratórias.
— Eu sei o meu papel, Sr. Valente — respondeu ela, desprovida da trepidação que ele esperava. — O que me preocupa é se o senhor sabe o que acontece quando a fachada desmorona.
Enzo parou abruptamente, forçando-a a encarar o aço frio de seus olhos.
— Você sabe o que acontece se o contrato for quebrado, não sabe?
O flash das câmeras começou a iluminar o rosto de Beatriz enquanto Enzo a puxava para perto, com uma possessividade calculada que fez o mundo ao redor prender a respiração.
— Sorria — ele sussurrou, a voz destilando veneno e promessa. — Agora você é uma Valente.