O último servidor
O ar no corredor técnico atrás da ala de servidores tinha um gosto metálico — ozônio e poeira estagnada que queimavam as narinas de Elena. Ela olhou para o relógio de pulso: 11 horas e 38 minutos para que o protocolo de expurgo automático apagasse, para sempre, a existência do prontuário de Heitor Gusmão. À sua frente, a porta de aço reforçado, marcada com o selo da Fundação Siqueira, parecia uma lápide.
Elena não tinha mais crachá, nem autoridade, apenas o pânico contido de quem sabia que a polícia, agora sob ordens diretas de Arnaldo Siqueira, já varria os andares inferiores sob a fachada de uma caçada a uma terrorista interna. Ela conectou o terminal improvisado ao painel. O sistema respondeu com um bipe clínico e rítmico, um metrônomo de execução. Na tela, o comando exigia autenticação administrativa total. Ao tentar forçar o desvio de carga, um novo prompt surgiu, cortando-lhe o fôlego: 'Sobrecarga de rede requerida: Desvio de energia de setores não prioritários para bypass de criptografia.'
Ela acessou o mapa de distribuição. O único setor com capacidade de carga ociosa era a Ala B. O suporte de vida dos pacientes terminais, os esquecidos daquela cidade-santuário, seria desligado instantaneamente para que o servidor se abrisse.
— Elena, pare. — A voz de Arnaldo ecoou pelo interfone, calma e autoritária. Ele não soava acuado, mas como um mestre de xadrez observando uma peça que caminhava para o próprio xeque-mate. — A prefeitura já emitiu o mandado. Você não é mais uma auditora, é uma ameaça à segurança pública. Se se afastar agora, o registro do seu erro será apagado. Pense na sua família. Eles não precisam saber que você se tornou uma terrorista interna por causa de um paciente que já estava marcado para morrer.
Elena ignorou a oferta, os olhos fixos na contagem regressiva. Ela sabia que Arnaldo era apenas o rosto visível, um peão de luxo em uma engrenagem que ligava o hospital a gabinetes que ela mal conseguia nomear. Ela cortou a comunicação, o silêncio que se seguiu sendo mais ensurdecedor que qualquer ameaça. Com um movimento firme, ela acionou o desvio de carga. O zumbido dos ventiladores nos corredores vizinhos cessou, substituído pelo silêncio súbito dos monitores da Ala B. Ela sentiu o peso da escolha no peito: cada segundo que a trazia para mais perto da verdade era um segundo tirado da respiração de alguém.
A porta blindada destravou com um clique metálico. Elena entrou no coração do sistema. O ambiente era gélido, uma câmara de refrigeração para os dados que o hospital queria enterrar. Ela conectou o dispositivo de extração, mas o progresso era agoniante. A tela revelou que os dados não estavam apenas sendo deletados; eles estavam sendo replicados para um servidor externo da prefeitura. Ela não estava apenas lutando contra um hospital, mas contra a própria estrutura de poder da cidade.
O upload mal atingia 42% quando a porta da sala foi atingida por um impacto brutal. Valdir e sua equipe de segurança haviam chegado. Cada golpe de aríete fazia a estrutura vibrar, soltando lascas de gesso do teto.
— Elena, abra! — a voz de Valdir era um rugido abafado. — Você está cometendo um crime contra a instituição. O Dr. Arnaldo quer apenas conversar. Saia agora e evite o pior.
Ela ignorou, os dedos voando sobre o teclado. Ela percebeu que, para garantir a cópia, precisaria destruir o hardware local, garantindo que o hospital não conseguisse reverter a extração. Com um comando final, ela iniciou a autodestruição do diretório principal. A porta cedeu com um estrondo metálico, a dobradiça superior voando como um projétil. Elena tinha 5 minutos de conexão restante. Ela se levantou, de costas para a parede, enquanto a segurança invadia o recinto com as armas em punho, o download avançando no monitor como uma sentença de morte que ela, finalmente, estava prestes a assinar.