O peso da verdade
O zumbido dos servidores na sala de TI era um ruído branco que não conseguia abafar o som do meu próprio sangue pulsando nas têmporas. Beto, o analista, estava encolhido sob a mesa, com os olhos fixos no monitor. A contagem regressiva em vermelho vivo marcava 11 horas e 42 minutos. O tempo não era apenas um número; era o cronômetro de uma execução.
— Eles não vêm para prender, Elena — Beto sussurrou, a voz trêmula. — Interceptei o rádio da segurança. O Dr. Arnaldo acionou a PM sob o protocolo de 'ameaça terrorista interna'. Eles têm autorização para atirar. Eles não querem uma auditoria; querem um cadáver.
Senti o volume rígido do prontuário original de Heitor Gusmão contra minhas costelas, escondido sob a jaqueta. Sem a prova digital, eu era apenas uma intrusa. O Dr. Arnaldo já tinha meu rosto em todos os terminais de vigilância. A sutileza tinha morrido no incinerador junto com meu crachá.
— Me dê o acesso administrativo — ordenei, mantendo a voz firme apesar do tremor nas mãos. — Agora, Beto.
Ele hesitou, o medo vencendo a lealdade, mas entregou o terminal. Deixei-o para trás e mergulhei no duto de ventilação. O metal galvanizado raspou meus ombros, um lembrete físico de que o hospital, antes meu local de trabalho, agora era uma armadilha de aço e silêncio.
Emergi na sacristia da capela anexa, um espaço onde a fé servia de fachada para a lavagem de dinheiro. Sobre a mesa de carvalho, entre folhetos de oração, encontrei um registro de doações com o timbre da prefeitura. Ao folheá-lo, a náusea me atingiu: a lista de acionistas majoritários do Santa Fé incluía o gabinete do prefeito. A cidade inteira era uma engrenagem interligada. Tentei ligar para o jornalista que outrora fora minha esperança, mas a resposta foi um silêncio seguido por uma voz fria e comprada, sugerindo que eu me entregasse para o meu próprio bem. Não havia autoridade a quem recorrer. A justiça estava na folha de pagamento da Fundação.
O monitor da sacristia tremeluziu. Meu rosto, capturado pelas câmeras do incinerador, estampava as telas. A voz de Arnaldo ecoou pelos alto-falantes, um sussurro amplificado que parecia vir de dentro das paredes: — Ela é uma auditora que perdeu o juízo. Tratem-na como uma ameaça terrorista. Que o 'acidente' ocorra antes que ela saia do setor de diagnósticos.
O cerco se fechava. Pelas câmeras, vi as viaturas da PM — as mesmas que deveriam proteger a ordem — cercarem a entrada principal. Eles não eram reforços; eram cúmplices. Eu estava sozinha contra toda a estrutura de poder da cidade. O hospital era um organismo fechado, e eu era o vírus que o sistema estava prestes a expelir.
Deslizei pelos corredores de serviço, esquivando-me das sombras dos guardas de Valdir, até chegar à porta blindada do servidor central. O bipe do sistema era um lembrete rítmico de que a realidade estava sendo deletada. Estudei a planta do setor: o servidor central não era apenas um repositório, era o cérebro que gerenciava todo o hospital, incluindo o sistema de suporte de vida da Ala B. Para romper o firewall de Arnaldo e copiar a prova definitiva, eu precisaria de uma sobrecarga de processamento que só poderia ser obtida desativando o suporte daquela ala.
Coloquei a mão sobre o comando de desligamento. Se eu fizesse aquilo, tornaria-me o monstro que tentava expor. Mas o relógio marcava 11 horas e 40 minutos. Botas pesadas ecoavam no mármore do corredor. A verdade exigia um preço de sangue, e o sistema não me deixaria sair sem pagá-lo.