A armadilha
O ar no subsolo do Hospital Santa Fé tinha gosto de fuligem e desinfetante vencido. Elena Viana estava agachada atrás de um carrinho de lavanderia, o peito subindo e descendo em um ritmo que ela tentava, inutilmente, controlar. O relógio digital em seu pulso, um lembrete cruel de sua obsolescência, marcava 11:42:10. Onze horas e quarenta e dois minutos para que o servidor central varresse cada bit de evidência sobre Heitor Gusmão.
O som de botas táticas batendo contra o piso de granito ecoou pelo corredor de serviço. Valdir, o chefe da segurança, não estava apenas patrulhando; ele estava caçando.
— Eu sei que você está aí, Viana — a voz de Valdir era um rosnado contido, carregado da autoridade de quem nunca precisou prestar contas a ninguém. — O Dr. Arnaldo não gosta de ratos no porão. E ele gosta menos ainda de quem tenta revirar o lixo da fundação.
Elena sentiu o peso do prontuário físico que havia recuperado, um volume que parecia pulsar contra seu peito como um segundo coração. Ela precisava sair dali. O incinerador, uma boca de metal escancarada que devorava prontuários e segredos, estava a poucos metros. Ao se mover para contornar o duto de ventilação, o cordão de seu crachá de auditoria enganchou em uma grade metálica. O puxão foi seco. O plástico, símbolo de sua autoridade e, até poucos minutos atrás, de sua segurança, deslizou pelo metal e caiu direto na fornalha ativa. O som do plástico derretendo foi um sibilo agudo, quase um grito.
Valdir surgiu na curva do corredor, a lanterna cortando a penumbra com a precisão de um bisturi. Elena não pensou; ela reagiu. Ela chutou o extintor de incêndio posicionado ao lado da parede. O cilindro tombou com um estrondo metálico e, ao ser acionado, liberou uma nuvem densa de pó químico que cegou o segurança instantaneamente. Ele tossiu, um som gutural, enquanto Elena disparava em direção à saída de emergência.
Ao passar por um monitor de segurança suspenso, ela viu o feed ao vivo. O Dr. Arnaldo Siqueira estava em sua sala, observando a tela. Ele não parecia surpreso. Ele parecia satisfeito. No momento em que Elena passou pela câmera, o rosto dela foi capturado em alta resolução. O jogo de gato e rato havia acabado; agora, era uma execução pública.
Ela alcançou a sala de servidores, o único lugar onde o zumbido dos processadores abafava o caos em sua mente. Beto, o analista de TI, estava encolhido sob a mesa, os dedos voando sobre um teclado com a velocidade do pânico.
— O Arnaldo sabe, Beto — ela sibilou, fechando a porta com um estrondo. — Ele me viu. O crachá foi para o incinerador. Estou marcada.
Beto girou a cadeira, o rosto pálido sob a luz azulada dos monitores. — Você não entende, Elena. O lockdown não é para te prender. É para te isolar. A polícia local já está no pátio. Eles não vieram para fazer um boletim de ocorrência. Eles vieram para limpar a cena. Para eles, você não é uma auditora. Você é uma ameaça terrorista interna.
Elena olhou para o mapa do hospital no monitor. Setores inteiros piscavam em vermelho. O cerco estava completo. A Fundação Siqueira não apenas controlava o hospital; ela controlava a lei, a cidade e a narrativa. Ela sentiu o peso do prontuário sob o jaleco. Se tentasse a saída convencional, seria abatida antes de chegar ao estacionamento.
— O servidor vai ser limpo em menos de doze horas — ela disse, a voz firme apesar do tremor nas mãos. — Se eles querem uma ameaça, vão ter uma.
Ela não ia fugir. Ela ia subir. O escritório de Arnaldo Siqueira era o único lugar onde a verdade ainda tinha valor, e ela precisava que ele soubesse que, mesmo sem crachá, ela ainda era a pessoa que conhecia seus segredos mais sombrios. O relógio marcou 11:38:00. O tempo de silêncio havia acabado.