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Chapter 6: O relógio de 24 horas

Elena perde o prontuário físico no hotel e descobre que o expurgo foi antecipado para 12 horas. Ela se infiltra no hospital disfarçada para recuperar a prova no incinerador, mas acaba perdendo seu crachá, confirmando sua identidade para Arnaldo e tornando a perseguição pessoal.

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O relógio de 24 horas

O ar no Hotel Central tinha gosto de mofo e desespero. Elena Viana encarou o colchão rasgado, as molas expostas como costelas de um animal abatido. O prontuário físico de Heitor Gusmão, sua única âncora com a realidade, havia sumido. No chão, um rastro de cinzas de cigarro e o silêncio pesado de quem fora caçado.

O celular vibrou. Uma mensagem de Beto, o analista de TI, atravessou a tela com a frieza de uma sentença: “Ele sabe, Elena. Arnaldo cortou meu acesso administrativo. O expurgo foi antecipado. Você tem 12 horas. Se eu for pego, serei o próximo.”

Doze horas. O cronômetro, antes um horizonte distante, agora era uma guilhotina descendo. Arnaldo não estava apenas limpando o erro; ele estava encurtando o tempo para queimar qualquer prova que ainda restasse no Hospital Santa Fé. Elena sentiu o peso do pendrive no bolso. A verdade sobre o protocolo de longevidade da Fundação Siqueira estava ali, mas era inútil sem a validação do prontuário físico que ela acabara de perder.

Ela não tinha mais para onde fugir. A segurança do hospital, liderada por Valdir, já estava na porta do hotel. Elena desceu pela escada de incêndio, o metal frio cortando suas mãos, e mergulhou na noite da cidade-santuário. O hospital, uma fortaleza de mármore e fé, brilhava no topo da colina, imponente e intocável. Ela precisava entrar, não como auditora, mas como um fantasma.

Às 02:15 da manhã, vestida com o uniforme azul desbotado da equipe de limpeza, Elena atravessou a ala de triagem. O cheiro de éter e flores de velório a atingiu como um soco. Cada passo no linóleo polido era um risco; cada câmera de segurança, um olho de Arnaldo. O relógio digital na parede da ala de serviço marcava 11:42:03. O tempo escorria.

Ela alcançou o subsolo. O calor do incinerador tornava o ar irrespirável, um forno industrial projetado para apagar vidas e registros. Perto da grade de aço, um funcionário empurrava um carrinho metálico. Lá estava: a pasta de Heitor Gusmão, prestes a ser entregue ao fogo.

Elena avançou, o coração batendo contra as costelas como um pássaro em gaiola. Ela agarrou a pasta, o papel rígido sob seus dedos, a prova de que Heitor não morrera de causas naturais, mas fora usado como cobaia. No momento em que puxou o documento, o movimento brusco fez seu crachá de auditoria escorregar do bolso. O plástico caiu, girou no ar e atingiu a chama azulada da fornalha. O derretimento foi instantâneo, um cheiro acre de químico queimado subindo ao teto.

O funcionário se virou, os olhos arregalados. Elena não esperou. Ela correu, mas o estrondo das portas de segurança sendo travadas ecoou pelo corredor. Arnaldo agora tinha sua identidade confirmada e o cerco estava fechado. O tempo para o expurgo final caía, e ela não era mais uma investigadora anônima. Ela era a próxima a ser deletada.

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