Aliados sob ameaça
O ar no quarto 304 do Hotel Central era denso, saturado pelo cheiro de mofo e pelo zumbido elétrico de um frigobar que lutava para gelar. Elena Viana não se atrevia a acender a luz. Ela estava sentada no chão, as costas coladas à parede, contando os segundos. Faltavam 34 horas e 12 minutos para o expurgo automático dos servidores do Santa Fé. O pendrive, contendo a prova do experimento de longevidade, parecia pesar quilos em sua mão.
No corredor, o som de botas pesadas e o estalido metálico de um rádio portátil cortaram o silêncio. Valdir, o chefe da segurança, não estava mais apenas vigiando; ele estava caçando.
— O gerente confirmou o registro falso — a voz de Valdir, grave e desprovida de qualquer hesitação, atravessou a porta de madeira fina. — Abram todas as portas. Nada sai deste prédio até que o Dr. Arnaldo autorize.
Elena sentiu o sangue gelar. O prontuário físico de Heitor Gusmão, a prova irrefutável de que ele fora uma cobaia, estava sobre a cama. Era volumoso, impossível de esconder em uma fuga rápida. Ela olhou para a janela que dava para o beco. Se levasse o papel, seria capturada. Se o deixasse, a evidência seria incinerada. Com um movimento trêmulo, ela empurrou o prontuário para debaixo do estrado da cama. O sacrifício do documento doía mais que o medo da morte. Ela guardou o pendrive no bolso interno da jaqueta e escalou a janela, sentindo o ar noturno da cidade-santuário, carregado de umidade e medo, atingir seu rosto.
Enquanto descia a escada de incêndio, o estrondo da porta do quarto sendo derrubada ecoou pelo beco. Ela não olhou para trás. Ao tocar o asfalto, misturou-se à procissão noturna que seguia em direção ao santuário, uma sombra entre as sombras.
No dia seguinte, o calor de meio-dia no adro da igreja era quase sólido. Elena observava Sônia, a enfermeira, que parecia uma figura quebrada sob o pórtico de pedra. Sônia segurava o terço com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.
— Sônia — Elena chamou, a voz firme, embora o coração martelasse. — Eu sei sobre o protocolo de longevidade. Eu vi os registros. Se você testemunhar, podemos derrubar a Fundação Siqueira.
Sônia recuou, os olhos disparando para as câmeras de segurança camufladas nos vitrais. O hospital não era apenas uma instituição; era o dono daquela cidade.
— Você não entende, Elena — a voz de Sônia era um fio de ar. — Eles enviaram fotos dos meus filhos na escola. Eles sabem a cor da mochila do meu caçula. Se eu abrir a boca, eles não vão me demitir. Eles vão me apagar.
Elena sentiu o estômago revirar. O custo da verdade era a vida de inocentes. Antes que pudesse responder, um sedan preto com vidros fumê deslizou pela praça. A porta do hospital se abriu e dois seguranças de Valdir cercaram Sônia. A enfermeira não resistiu; lançou a Elena um olhar de derrota absoluta antes de ser conduzida de volta ao complexo. Elena percebeu, com um aperto no peito, que ao pressionar Sônia, ela só havia acelerado o destino da mulher. Ela não era uma heroína; era o gatilho da destruição alheia.
O celular vibrou. Uma notificação do sistema: o expurgo fora antecipado para 12 horas. O cerco havia fechado.
De volta ao hotel, Elena observava pela fresta da cortina. O carro de Arnaldo Siqueira deslizou pela praça. O diretor clínico saiu com a calma de um dono de terras. Ele parou diante de Sônia, gesticulou para os seguranças e a mulher foi removida. Arnaldo levantou o olhar, varrendo as janelas do hotel até encontrar a de Elena. Ele não sorriu. Fez o gesto de corte na garganta e apontou para o relógio. A mensagem era cristalina: o tempo de Elena estava sendo drenado por suas próprias escolhas.
Ela correu para um cybercafé de beira de estrada. O cursor piscava na tela. Beto finalmente respondeu:
Eles descobriram a brecha. Arnaldo antecipou o expurgo para daqui a 12 horas. Eu estou sendo caçado. Você é a próxima.
A conexão caiu. Elena guardou o pendrive e saiu para a noite. O relógio da torre da igreja parecia marcar o tempo em batidas de um coração condenado. Doze horas para a verdade ou o esquecimento.