O santuário de vidro
O bipe do sistema de segurança, um som clínico e desprovido de piedade, cortava o ar úmido do corredor de serviço. Elena Viana prensou o corpo contra a parede de azulejos frios, o prontuário físico de Heitor Gusmão — a prova de um crime enterrado em papel — apertado contra as costelas. No bolso do jaleco, o pendrive com a cópia digital queimava como uma brasa. Atrás dela, o eco de botas táticas no linóleo administrativo não deixava margem para dúvidas: Valdir e sua equipe de segurança não faziam mais uma ronda de rotina. Eles estavam caçando.
— Ela não pode ter ido longe — a voz de Valdir, carregada de uma autoridade que emanava do próprio Dr. Arnaldo, vibrou pelo duto de ventilação. — O Diretor quer o prontuário físico. Se ela estiver com ele, não saia viva do setor.
Elena sentiu o suor escorrer pela nuca. O lockdown, que ela esperava usar como cobertura, tornara-se sua própria armadilha. O hospital Santa Fé, com sua arquitetura de vidro e aço, transformara-se em um labirinto onde cada câmera de segurança era um olho do Dr. Arnaldo Siqueira. Ela tinha exatamente 36 horas antes que o sistema de expurgo automatizado deletasse permanentemente qualquer rastro de Heitor Gusmão como cobaia.
Ela deslizou para a escada de emergência, misturando-se a um grupo de funcionárias da limpeza que subia para a troca de turno. Manteve a cabeça baixa, o jaleco manchado de café servindo como um disfarce de invisibilidade. Ao cruzar a porta dos fundos, o ar noturno da cidade, impregnado pelo cheiro de incenso do santuário vizinho, atingiu-a como um choque térmico. Ela estava fora das paredes do hospital, mas a caçada apenas começara.
Escondida no quarto 204 de um hotel barato, Elena conectou o pendrive ao laptop surrado. O cronômetro no canto da tela marcava 34 horas e 12 minutos. A interface exigia uma chave de acesso vinculada à Fundação Siqueira. A criptografia não era apenas técnica; era institucional. Era uma trava de fé aplicada sobre dados de carne e sangue.
— Vamos, abra — sibilou ela. Ao inserir a senha mestra, o processador emitiu um gemido metálico. Uma cascata de arquivos surgiu. Não eram apenas prontuários. Eram logs de observação comportamental e métricas de longevidade, datados de meses antes da morte de Heitor. A revelação atingiu Elena com a força de um soco: Heitor não fora um doador. Ele era a cobaia de um protocolo experimental ilegal, financiado pela fachada religiosa que protegia o hospital. O código de auditoria que validava as injeções de um composto sintético pertencia ao próprio Dr. Arnaldo Siqueira.
O som de passos pesados no corredor interrompeu sua leitura. Uma batida seca ecoou na porta.
— Dona Elena? Auditoria. Precisamos verificar o registro de entrada — a voz de Valdir era um convite para o abismo.
Elena fechou o laptop, o coração martelando. Pela fresta da cortina, viu o brilho de uma luz vermelha de câmera de segurança no corredor. Estava marcada. Enquanto se preparava para a fuga pela janela, testemunhou, no pátio do hotel, a enfermeira que ela tentara proteger na ala administrativa ser demitida e escoltada para fora por dois seguranças. A impunidade de Arnaldo era absoluta. Ela era a próxima da lista, e o sistema, vasto e cruel, não toleraria mais testemunhas.