A contagem aperta
O bipe metálico do terminal, um som clínico e rítmico, cortava o silêncio do escritório de auditoria como uma lâmina. Cada pulso eletrônico era a contagem regressiva para a aniquilação definitiva do prontuário de Heitor Gusmão. No canto da tela, o relógio do sistema marcava 46:08 para o expurgo irreversível. Elena Viana observava o cursor piscar, um convite cruel à sua impotência. Ela tentou o comando de reversão, mas o servidor respondeu com uma janela vermelha: Acesso Negado. Usuário em conflito.
Beto não estava apenas cobrindo seus rastros; ele estava reescrevendo as permissões de acesso administrativo em tempo real, usando a senha dela como escudo. O sistema, configurado para proteger a integridade financeira do hospital, identificava a atividade como uma intrusão externa e travava o núcleo de dados. O som seco da porta do corredor sendo golpeada por Valdir, o chefe da segurança, ecoou pelo escritório.
— Elena, abra agora. Não torne isso mais difícil — a voz de Valdir, abafada pela porta blindada, carregava a autoridade de quem não conhece a dúvida. O som das botas táticas batendo contra o piso de granito indicava que ele não estava sozinho. Eram três, talvez quatro homens.
Elena não respondeu. Seus dedos moviam-se pelo teclado com a precisão de quem não tem margem para o erro. O prontuário físico de Heitor Gusmão estava escondido sob sua blusa, contra a pele fria, mas a prova digital — o registro que provava a injeção fatal de cloreto de potássio — ainda estava sendo transferida para um pendrive encriptado. A barra de progresso, porém, estagnou em 42%.
De repente, o barulho no corredor cessou. O tranco magnético da porta destravou com um clique metálico. A porta abriu-se sem que Valdir precisasse arrombá-la. Dr. Arnaldo Siqueira entrou, impecável em seu jaleco branco, o rosto esculpido em uma serenidade que a cidade confundia com santidade. Ele não olhou para os seguranças; seus olhos estavam fixos na tela de Elena.
— O hospital está em um dia difícil, Elena — disse ele, a voz suave, quase um sussurro paternal. — O doador que financia nossa nova ala oncológica decidiu nos visitar. E, como o sistema de segurança detectou uma intrusão, fui obrigado a restringir o acesso de todos. Incluindo o seu.
Arnaldo caminhou até a mesa, a sombra projetada sobre o monitor. Elena sentiu o suor frio escorrer por suas costas; ela não podia fechar a janela sem denunciar a operação em curso. Ela mantinha o dispositivo oculto conectado, esperando o milagre de um download que insistia em falhar.
— O sistema travou, Doutor. Estou tentando normalizar o log de auditoria antes que a atualização automática ocorra — mentiu ela, a voz firme, embora suas mãos estivessem trêmulas sob a mesa.
Arnaldo parou atrás dela. Enquanto ele divagava sobre a "missão sagrada" do Santa Fé e o destino dos prontuários ser decidido pelos pilares da cidade, Elena percebeu o brilho de um alerta silencioso no canto da tela. O download, enfim, saltou para 100%. Com um movimento rápido, escondido pela curva da mesa, ela desconectou o dispositivo e o empurrou para o fundo de uma gaveta entreaberta.
— A curiosidade é uma virtude perigosa em corredores tão estéreis quanto estes — Arnaldo concluiu, um sorriso gélido nos lábios.
O sistema de segurança, detectando a conclusão da transferência, disparou um alerta de intrusão que ecoou por todo o andar. O hospital entrou em lockdown total. As portas magnéticas selaram-se com um estrondo. Valdir e seus homens avançaram, mas Elena não esperou. Usando o protocolo de emergência que ela conhecia melhor que ninguém, ela disparou a trava manual da porta de serviço atrás da mesa de Arnaldo.
Ela correu para os corredores escuros, o pendrive queimando como brasa em seu bolso. Faltavam 36 horas. Atrás dela, o som das botas de Valdir aproximava-se. Ela alcançou a saída de emergência, mas ao conectar o pendrive em um terminal isolado para uma verificação rápida, o arquivo decodificou. Não era apenas um erro médico. O prontuário revelava que Heitor Gusmão não era um doador, mas uma cobaia de um protocolo experimental de longevidade. O sistema era muito maior do que ela pensava.