Contagem regressiva final
O bipe do servidor central era um metrônomo de agonia. Na tela, a barra de progresso do upload arrastava-se — 42% — enquanto, do outro lado da porta reforçada, o impacto metálico das coronhadas de Valdir fazia o ar vibrar. Cada golpe era um lembrete físico: o Hospital Santa Fé não aceitava auditorias que expusessem o cloreto de potássio injetado como "erro médico" no prontuário de Heitor Gusmão.
— Abre essa porta, Viana! — a voz de Valdir era um rosnado abafado, desprovida de qualquer humanidade. — O Dr. Arnaldo não quer mais conversar. Ele quer o arquivo.
Elena ignorou o pânico que subia pela garganta. O gosto amargo da culpa pela Ala B — pacientes cujos monitores ela silenciara para forçar o acesso — pesava mais que o medo da própria morte. Ela digitou comandos rápidos, mas o cursor travou. Uma mensagem em letras vermelhas brilhou: Conexão externa interrompida. O sistema de segurança isolara a rede cabeada. Eles cortaram o cabo principal, selando a sala por fora. Ela olhou para o monitor, desesperada. O tempo para o expurgo definitivo do sistema era um espectro, mas o upload era agora o seu único deus. Se a rede estava morta, ela precisava de uma alternativa. Seus dedos voaram pelo painel de controle, ignorando a dor nas articulações. Ela acessou o protocolo de rádio de baixa frequência, uma relíquia usada para comunicações de emergência internas.
O zumbido dos processadores aumentou. 68%... 69%... 70%. Seu celular vibrou no bolso. Uma mensagem de Beto saltou na tela, curta e gélida: “Eles cortaram o acesso remoto. Estou fora. Arnaldo está na central de segurança, Elena. A polícia bloqueou todas as saídas do subsolo. Não há para onde correr.”
Elena sentiu o suor escorrer pelas têmporas. A luz da sala oscilava, um aviso tátil de que o sistema elétrico, sobrecarregado pelo desvio de energia da Ala B, estava prestes a colapsar. Ela não podia permitir que o sacrifício daqueles pacientes fosse em vão. A porta cedeu mais alguns centímetros, o metal rangendo sob a pressão de um aríete improvisado pelos homens de Valdir.
— Elena, você não tem para onde ir — a voz de Valdir era abafada, mas carregada de uma autoridade emprestada pela impunidade de Arnaldo.
Elena não respondeu. Ela se encolheu atrás do rack principal, o prontuário físico de Heitor Gusmão apertado contra o peito como um escudo de papel. Seus dedos verificavam a conexão do rádio de emergência. O upload dos logs criminosos para a nuvem pública engatinhava. 87%... 90%.
Um estrondo ensurdecedor ecoou quando a dobradiça superior da porta cedeu. O metal guinchou, agonizante. Elena sentiu o ar frio do corredor invadir o ambiente abafado. Com um golpe final, a porta foi arrancada de seus eixos. A luz branca e estéril do corredor revelou a silhueta de Valdir, arma em punho, e logo atrás dele, a figura impecável do Dr. Arnaldo Siqueira. O diretor clínico não parecia um homem que acabara de ter seu império posto em xeque; ele parecia um juiz prestes a proferir uma sentença.
O upload marcou 99%. Elena, encolhida no canto, viu Arnaldo ignorar os servidores e focar diretamente nela. Ele sorriu, um gesto frio que não alcançava seus olhos.
— O prontuário físico não importará quando você estiver morta, Elena — Arnaldo disse, sua voz calma cortando o caos. — O sistema sempre se limpa. Você é apenas uma falha técnica que estamos corrigindo.
O upload atingiu 100%. O arquivo estava na nuvem. Elena sentiu o peso da evidência, mas o cano frio da arma de Valdir apontado para sua cabeça disse que a verdade, por si só, não a salvaria.